De la Rúa prepara pacote com isenções tributárias
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terça-feira, 23 de novembro de 1999
Por Vladimir Goitia (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 23 (AE) - O presidente eleito da Argentina, Fernando de la Rúa, que anuncia amanhã (24) o seu gabinete, vai eliminar praticamente todas as isenções tributária concedidas pelo atual governo do presidente Carlos Menem. Com isso, De la Rúa pretende arrecadar pelo menos US$ 1,2 bilhão a mais já no próximo ano. Embora não pretenda realizar grandes transformações na estrutura tributária do país, o novo governo, que toma posse no dia 10 de dezembro, deve eliminar, por exemplo, os benefícios tributários que hoje têm as cooperativas e associações sem fins lucrativos. Deve ainda estender a cobrança do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) à área de espetáculos (cinema, teatro e esportes) e transporte público. Vai acabar ainda com a isenção que favorece solventes de uso industrial.
O futuro governo de la Rúa pretende também reduzir o gasto público em pelo menos US$ 600 milhões por ano. Para isso, a idéia é aumentar para 65 anos a idade mínima de aposentadoria das mulheres e reduzir ao máximo o número de adidos militares no exterior. Ao todo, o pacote de medidas para reduzir custos e aumentar receita teria um impacto positivo de US$ 1,8 bilhão nas contas públicas. Esses recursos permitiriam cobrir, em parte, o déficit de US$ 2 bilhões hoje não contabilizados pelo governo Menem e que será herdado pelo quase ministro José Lluis Machinea.
De la Rúa deve fazer amanhã, por meio de uma entrevista coletiva à imprensa, seu primeiro pronunciamento à nação, mesmo antes de tomar posse. É possível que o presidente eleito venha mostrar que as contas fiscais do país não vão nada bem. Aliás, que estão tão ruins que o custo político do ajuste teria de ser de Menem. Ou seja, De la Rúa tem pouco mais de 15 dias de prazo para aprovar o Orçamento de 2000 e para fazer os cortes necessários para começar governando no dia 10 de dezembro com as contas do ajuste já aprovadas.
A idéia de De la Rúa é conseguir o mesmo, senão maior, apoio recebido nas urnas no dia 24 de outubro, quando foi eleito presidente do país. O ajuste necessário para conseguir cumprir as metas determinadas pela lei de responsabilidade fiscal é tão grande que a Aliança não quer arcar com os custos políticos das medidas.
Para atingir a meta de um déficit de US$ 4,5 bilhões (1,5% do PIB) no ano 2000, o governo terá de cortar dos gastos previstos no Orçamento do próximo ano pelo menos US$ 5,5 bilhões. Até agora, a equipe econômica do potencial ministro de Economia, José Luis Machinea, não encontrou fórmulas para fazer esse cortes e não sabem nem de onde tirar tanto dinheiro. Segundo a Aliança o déficit fiscal previsto para o próximo ano é de US$ 10 bilhões, o dobro do que foi previsto para este ano (US$ 5,1 bilhões, meta assinada com o Fundo Monetário Internacional).
Mesmo com os ingressos extraordinários pela venda das ações remanescentes da YPF e pela privatizações na área de telefonia celular, o governo Menem não vai cumprir com essa meta e o déficit deve chegar a pelo menos US$ 5,8 bilhões. Machinea disse que, no próximo ano, o governo da Aliança não vai contar com esses recursos extraordinários. Conforme a Agência Estado havia antecipado alguns dias antes das eleições, os recursos necessários para enfrentar os vencimentos da dívida pública argentina e de outros compromissos do país no próximo ano superam as reservas externas do Banco Central (BCRA). Estudo da Fundação Capital mostra que o governo do presidente eleito Fernando de la Rúa precisa cerca de US$ 25 bilhões e não os US$ 20 bilhões estimados até agora pelo atual governo Menem e pela equipe de Machinea. As reservas do Banco Central da República Argentina não podem, por lei, ser utilizadas para cobrir esse "rombo".
De acordo com o estudo, apenas no primeiro trimestre de 2000 as necessidades de financiamento chegam a US$ 3,45 bilhões. Nos três trimestres sucessivos, elas chegam a U$ 2,86 bilhões, US$ 5 74 bilhões e US$ 3,28 bilhões, respectivamente. Somados aos fundos requeridos pelas províncias (Estados), aos vencimentos de capital da dívida (considerando as letras do Tesouro) e ao déficit fiscal previsto em 2000 (US$ 4,5 bilhões), as necessidades de financiamento se aproximam de US$ 25 bilhões, mais de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) argentino.


