São Paulo, 10 (AE) - O presidente Fernando de la Rúa, que assumiu hoje (sexta-feira) a presidência da Argentina, pode pedir, já nos próximos dias, um "waiver" (dispensa de uma cláusula por não ter cumprido o acertado) ao Fundo Monetário Internacional (FMI) porque o déficit fiscal este ano pode ultrapassar em quase US$ 700 milhões a meta acertada no primeiro semestre.
O déficit fiscal que o presidente Carlos Menem deixou a De la Rúa depois de dez anos no poder chegou a US$ 5,631 bilhões em novembro, resultado que não leva em conta ainda os dados negativos da previdência social. Esse rombo supera, até agora, em US$ 531 milhões a meta de US$ 5,1 bilhões renegociada com o FMI para este ano. Só em novembro, o déficit fiscal argentino foi 263% superior ao do mesmo mês do ano passado, segundo dados divulgados pelo Ministério de Economia, constituindo-se no pior resultado do ano.
Relatório da Fundação Capital, um dos escritórios de consultoria mais conceituados do país, mostra que a futura administração será obrigada a pedir "waiver" ao FMI. "O desequilíbrio fiscal deste ano exige do novo governo uma redução de US$ 1,87 bilhão, em média, por ano do déficit fiscal até 2003
quando ele terá de estar em zero, cumprindo o que determina a lei de responsabilidade fiscal", diz o documento, enviado com exclusividade para a Agência Estado.
Alguns dias depois da vitória de De la Rúa nas eleições do dia 24 de outubro, o governo Menem reconheceu que o déficit fiscal este ano poderia chegar a US$ 5,8 bilhões. Mas, dado o déficit de US$ 1,047 bilhão em novembro (que não inclui as contas negativas da previdência social), os números do Tesouro argentino podem ser ainda piores e superar os US$ 6 bilhões, considerando o resultado deste mês. No início deste ano, a previsão do déficit era de US$ 4,9 bilhões.
Na terça-feira, chega a Buenos Aires uma missão do FMI liderada por Teresa Ter-Minassian para iniciar as primeiras conversações oficiais com o governo empossado hoje. O novo secretário da Fazenda, Mario Vicens, disse que é provável que o governo do presidente De la Rúa peça uma ampliação do atual programa de metas, em termos de tempo e, eventualmente, de recursos. A equipe econômica do presidente de la Rúa terá, agora
de sentar-se à mesa com o FMI ainda sem o Orçamento de 2000 aprovado e com o pacote de ajuste fiscal não definido totalmente.
Ainda de acordo com o relatório da Fundação Capital, o ajuste adicional do novo governo para cumprir com a meta de um déficit de US$ 2,11 bilhões em 2000 (conforme o que determina a lei de responsabilidade fiscal), ou de US$ 2,43 bilhões (conforme o acertado com o FMI), terá de ser maior aos US$ 500 milhões se o desequilíbrio este ano for superior aos US$ 5,6 bilhões estimados pelo anterior governo.
De qualquer forma, afirmam os economistas da Fundação Capital
a magnitude do ajuste a ser implementado no Orçamento do próximo o ano 2000 seria superior aos US$ 2 bilhões. "Ao fechar as contas de 1999, as metas do déficit fiscal com o FMI não estarão cumpridas, razão pela qual haverá a necessidade do waiver", conclui o documento.
Informe do escritório de consultoria Equis mostra que o desemprego na Argentina chega a 2,77 milhões, ou 20,1% da população economicamente ativa, e não apenas a 1,96 milhão, conforme dados oficiais divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).
O levantamento afirma que a "desocupação aberta e ajustada"
que os órgãos oficias consideram como subocupados, são, na realidade, "desocupados ocultos". "Desde a perspectiva da taxa de desocupação ajustada, o desemprego real este ano, longe de manter-se constante, cresceu 160 mil pessoas, passando de 2 61 milhões, em maio, para 2,77 milhões em outubro", diz o informe.

mockup