Buenos Aires, 09 (AE) - A faculdade de Direito de Córdoba deve estar exultante: na última década do século, a Argentina foi governada por um ex-formado, o presidente Carlos Menem. Agora, será a vez de outro ex-formado, Fernando De la Rúa, que começará a primeira década do século XXI como presidente dos argentinos. Outro ponto em comum entre "El Turco" (Menem) e "Chupete", como carinhosamente é denominado De la Rúa, é que casaram com as filhas de duas famílias que lhes permitiram uma rápida ascensão social.
Mas as coincidências terminam por aí. Ao contrário do exuberante Menem, De la Rúa preza a discrição e sobriedade, que ocasionalmente também tangencia a sovinice: o novo presidente costuma cortar seu próprio cabelo, alegando que "é pouquinho o que tenho sobre a cabeça". Seus amigos admitem que "Chupete" dá uma de "Figaro" para não gastar no barbeiro.
Quase taciturno, a pedido de seu filho Antonio e assessores de imagem, De la Rúa fez um verdadeiro tour de force no último ano para poder contar piadas e ampliar em alguns milímetros seu inexpressivo sorriso.
Somente Antonio poderia ter feito isso. De la Rúa é refratário às influências externas ao grupo familiar. Analistas consideram que seu governo terá uma profunda marca pessoal, mas de forma alguma populista: ao contrário de Menem e Raúl Alfonsín
não possui apoio irrestrito de seu partido e não mobiliza massas.
Sóbrio, utiliza impreterivelmente ternos cinzas ou azuis, e somente se dá ao luxo de relaxar quando ostenta um lencinho de seda no pescoço.
Seu único vício - descoberto - o escondia rigorosamente: fumar cigarrilhas holandesas "Agio". Mas o pneumotórax espontâneo que causou sua internação duas semanas após as eleições do 24 de outubro, fizeram com que os deixasse. Como hobbies, difere de Menem, que preferia dirigir uma Ferrari ou sair com vedetes: De la Rúa é fanático pela ornitologia e o estudo de árvores raras. Outra paixão é o Boca Juniors.
De la Rúa nasceu no dia 15 de setembro de 1937 na cidade de Unquillo, Córdoba, no interior do país. Militante da União Cívica Radial (UCR), em 1963 começou sua vida pública como assessor do presidente Arturo Illía. O golpe de 1966 interrompeu sua carreira política, que retomou em 1973, ao ser eleito senador pela capital do país. Nesse intervalo, casou-se com Inés Pertiné, filha de uma aristocrática família portenha, com quem teve dois filhos e uma filha. Esta, é mãe de seus dois netos.
Meses depois de sua eleição como senador, foi o candidato a vice de Ricardo Balbín, líder histórico da UCR. Ambos perderam com 24% dos votos para o general Juan Domingo Perón, que obteve a avassaladora vitória com 61%. "Kennedy argentino" foi a forma como foi definido por analistas políticos, que viam para ele um futuro fulgurante.
Mas o sucesso demorou mais que o previsto: em 1983, liderando a corrente conservadora do partido - a "Línea Nacional" - perdeu a convenção interna da UCR para Raúl Alfonsín, da "Renovación y Cambio" para a candidatura à presidência do país. Nos anos que se seguiram foi senador, deputado, e em 1996, tornou-se o primeiro prefeito eleito de Buenos Aires. Da sacada leste da prefeitura, durante os últimos três anos, observou a Casa Rosada, separada somente pela histórica Plaza de Mayo. Amanhã, saudará os "Granaderos" - a guarda presidencial - e entrará no palácio de governo para tornar-se o quadragésimo-segundo presidente do país. E também no primeiro integrante da UCR que receberá o poder de um peronista.

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