Buenos Aires, 24 (AE) - O candidato da oposição, Fernando de La Rúa, venceu as eleições presidenciais na Argentina com uma grande vantagem sobre o partido Justicialista, representado pelo candidato Eduardo Duhalde.
As pesquisas de boca-de-urna e os resultados preliminares da apuração dos votos indicavam que o candidato deveria somar 51% ou mais dos votos.
Hoje (24), logo depois das 20 horas, o presidente da Argentina, Carlos Menem, telefonou para De La Rúa, parabenizando-o pela vitória.
Logo após a divulgação das pesquisas, começaram as comemorações no Hotel Panamericano, onde se instalou todo o comando da campanha da Aliança e uma grande manifestação popular de milhares de pessoas começou junto ao Obelisco, tirando a apatia que marcou toda a campanha eleitoral e também o dia das eleições. A praça e as ruas próximas ao monumento ficaram lotadas de manifestantes, agitando bandeiras e soltando rojões.
Hoje à noite, a Aliança também considerava como certa a vitória da candidata à província de Buenos Aires, Graciela Fernández Meijide, fator considerado muito importante para a governabilidade de De La Rúa, porque impede que o Justicialimo governe a província mais importante do país.
O presidente Fernando Henrique Cardoso telefonou para o candidato eleito logo que o resultado foi confirmado. E De La Rúa marcou, para às 22 horas do Brasil, um pronunciamento à população argentina, onde já falaria como presidente eleito, segundo seus assessores.
O resultado provavelmente está impondo a Duhalde, a pior derrota que o peronismo teve em sua história de meio século. As pesquisas indicavam que ele poderia ficar com menos de 35% dos votos válidos. Hoje, foi a quarta vez, desde o retorno da democracia em 1983, que os argentinos votaram para presidente da República. A grande porcentagem de votos obtida por De La Rúa darão força política ao seu governo, segundo avaliação de empresários e analistas políticos.
Para o analista Rosendo Fraga, do Centro de Estudos para a Nova Maioria, a vitória de De La Rúa com mais de 50% dos votos válidos o fortalece perante Raúl Alfonsin, principal líder do radicalismo (UCR) e perante a Frepaso (segunda força política da coligação que o levou à vitória)."Este resultado lhe dá independência para montar seu gabinete como quiser", observou Fraga.
Para o secretário-geral da União Industrial Argentina (UIA), Ignácio Mendiguren, "a vitória com esta vantagem dá força política a De La Rúa para que implemente suas propostas". Os resultados preliminares também indicavam que a Aliança estaria ampliando seu número de deputados em 16 cadeiras, passando a ter 122 representantes. O partido Justicialista deve perder 16 deputados, passando a ficar com 106, enquanto a Ação pela República amplia sua representação dos atuais três para 11 deputados.
De La Rúa teve hoje um sinal de que o presidente Carlos Menem pode fazer uma oposição moderada. Menem, pela primeira vez, mudou o discurso que fez ao longo de todo o processo eleitoral, quando insistiu que De La Rúa iria desvalorizar o peso e acabaria com a paridade que esta moeda mantém com o dólar. "Tenho certeza que qualquer candidato que vencer, manterá a convertibilidade", afirmou, quando se preparava para votar.
Ao contrário de Menem, após a divulgação das pesquisas de boca-de- urna, Duhalde não reconheceu sua derrota e afirmou que as pesquisas eleitorais não eram confiáveis. Para os analistas, o futuro político do candidato, que nunca havia perdido uma eleição desde que em 1973 foi eleito prefeito da cidade de Lomas de Zamora, é um mistério.
"Pelo menos terei a presidência do partido peronista na província de Buenos Aires", consolou-se, pelo manhã, prevendo o pior no fim do dia.
Ao longo deste ano, Duhalde sofreu a sabotagem interna do presidente Carlos Menem, seu inimigo político dentro do peronismo. Menem não participou da campanha, e sempre que pode, desestabilizou sua base de poder.
"Não terei nenhuma responsabilidade", havia alertado o presidente Carlos Menem horas antes da eleições sobre a eventualidade de uma derrota do peronista Eduardo Duhalde. Menem explicou: "não sou eu o candidato...". O presidente admitiu que "chegou a hora de ser oposição", que segundo ele "será construtiva, para permitir que a Argentina continue crescendo". O peronismo, costuma-se dizer, não aceita dois caciques simultâneos.
"Não conheço derrotas", disse Menem, que também autodefiniu-se como "um triunfador", embora para o povo seja "El Turco", uma raposa política que nunca foi derrotada pessoalmente em uma eleição. No momento de votar, pela manhã, Menem desconversou sobre o resultado das eleições nacionais, e somente comentou que "aqui, em La Rioja, o peronismo vai ganhar".
Com ironia, o presidente também eludiu falar sobre a campanha "Menem 2003", dizendo que nos cartazes "não está escrito Carlos Menem, e eu não sou o único Menem que existe no país...".
Zulema Yoma, ex-esposa de Menem disse que votava "esperando Justiça".
Zulema referia-se ao esclarescimento da morte de seu filho, Carlos Menem Jr, ocorrida em 1995 em um suspeito acidente de helicóptero.
Zulema sustenta que seu filho foi assassinado, e sempre acusou seu ex-marido de não usar seu poder para investigar o caso. "No dia 11 de dezembro pedirei uma audiência com o novo presidente", disse.
O peronista Carlos Reutemann, governador de Santa Fé, que desponta como um dos líderes no peronismo na era pós-Menem, criticou o lançamento da campanha "Menem 2003": "o país tem muitos problemas que resolver no ano que vem, e esse lançamento não é conveniente".
A eleição transcorreu sem maiores incidentes. A única exceção de destaque foi o momento em que votou o ministro do Interior Carlos Corach: dois de seus guarda-costas, com domicílio em outras províncias, votaram em Buenos Aires. O fato foi imediatamente denunciado por um fiscal da oposição. Corach, cujo ministério é o encarregado da organização das eleições, conferiu a infração, e pediu desculpas por seus subordinados.
Em diversas seções eleitorais os presidentes de mesa perceberam com supresa que em suas listas de eleitores estavam nomes de desaparecidos da última Ditadura Militar argentina (1976-83), como o escritor Rodolfo Walsh e o guerrilheiro Mario Santucho. Os nomes não foram removidos, porque suas mortes nunca foram informadas oficialmente. Legalmente ainda estariam vivos, porque seus corpos jamais foram encontrados.
Os argentinos votaram com uma forte disposição para a mudança. Os motivos estariam na situação atual do país. Os dez anos de governo Menem proporcionaram o fim da inflação e uma grande abertura ao capital estrangeiro, embora com um grande custo social. O desemprego passou de 7% para 14,5% e a dívida externa aumentou de US$ 63 bilhões para US$ 150 bilhões, mesmo com a entrada para os cofres do Estado argentino de US$ 39 bilhões obtidos com as privatizações.
Segundo uma pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP), 82,7% dos argentinos votaram preocupados pelo desemprego. A corrupção é a segunda causa de preocupações dos eleitores (63,6%), seguido da falta de segurança (61,9%) e os baixos salários (42,4%).

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