Buenos Aires, 24 (AE) - Pela quarta vez desde o retorno da democracia em 1983, os argentinos votaram hoje (24) para presidente da república. O eleito, segundo as pesquisas, seria Fernando De la Rúa, candidato da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso, que inflingiria a Eduardo Duhalde, o candidato do partido Justicialista (também conhecido como Peronista), a pior derrota que o peronismo já teve em sua história de meio século.
Segundo várias pesquisas de boca-de urna, De la Rúa teria conquistado por volta de 50% dos votos. O instituto SOFRES y IBOPE previu que De la Rúa ficará com 51,1% dos votos. Duhalde acabaria com 35,8%; e o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo, da Ação pela República, com 10,5%.
No momento de votar, hoje de manhã, o cauteloso De la Rúa eximiu- se de declarações específicas, restringiu-se a generalidades, e pediu que Deus o ajudasse. O candidato também afirmou que "a transição política será em ordem" e o país estará "começando um quarto período constitucional consecutivo, o que é um excelente sinal para o mundo".
De la Rúa teve hoje um sinal de que o presidente Carlos Menem pode fazer uma oposição moderada. Menem, pela primeira vez, mudou o discurso que fez ao longo de todo o processo eleitoral, quando insistiu em que De la Rúa iria desvalorizar o peso e acabaria com a paridade que a moeda mantém com o dólar. "Tenho certeza que qualquer candidato que vencer manterá a convertibilidade", afirmou, quando se preparava para votar.
Desanimado e distante, Duhalde fez declarações durante o café da manhã. Com ar resignado, disse que não se havia comunicado com correligionários de outras províncias "para não os incomodar em um dia complicado como este". Sentado ao lado de sua mulher, Hilda Chiche de Duhalde, que já declarou publicamente que "ao deixar o poder voltaremos a viver", o candidato peronista recusou-se a fazer uma análise da situação econômica do país.
Para os analistas, o futuro político do candidato, que nunca havia perdido uma eleição desde que, em 1973, foi eleito prefeito da cidade de Lomas de Zamora, é um mistério. "Pelo menos terei a presidência do Partido Peronista na Província de Buenos Aires", consolou-se, prevendo o pior, no dia anterior.
Ao longo deste ano, Duhalde sofreu a sabotagem interna do presidente Carlos Menem, seu inimigo político dentro do peronismo. Menem não participou da campanha e, sempre que pôde, desestabilizou sua base de poder.
"Não terei nenhuma responsabilidade", havia alertado Menem horas antes das eleições sobre a eventualidade de uma derrota de Duhalde. "Não sou eu o candidato", explicou. O presidente admitiu que "chegou a hora de ser oposição", a qual, segundo ele, "será construtiva, para permitir que a Argentina continue crescendo". O peronismo, costuma-se dizer, não aceita dois caciques simultâneos.
"Não conheço derrotas", disse Menem, que também se definiu como "um triunfador", embora para o povo seja "El Turco", uma raposa política que nunca foi derrotada pessoalmente em uma eleição. No momento de votar, hoje pela manhã, Menem desconversou sobre o resultado das eleições nacionais e somente comentou que "aqui, em La Rioja, o peronismo vai ganhar". Com ironia, o presidente também evitou falar sobre a campanha "Menem 2003", dizendo que nos cartazes "não está escrito Carlos Menem, e eu não sou o único Menem que existe no país".
O peronista Carlos Reutemann, governador de Santa Fé, que desponta como um dos líderes no peronismo na era pós-Menem, criticou o lançamento da campanha "Menem 2003": "o país tem muitos problemas que resolver no ano que vem, e esse lançamento não é conveniente".
A eleição transcorreu sem maiores incidentes. A única exceção de destaque foi o momento em que votou o ministro do Interior Carlos Corach: dois de seus guarda-costas, com domicílio em outras províncias, votaram em Buenos Aires. O fato foi imediatamente denunciado por um fiscal da oposição. Corach, cujo ministério é o encarregado da organização das eleições, conferiu a infração, e pediu desculpas por seus subordinados.
Em diversas seções eleitorais os presidentes de mesa perceberam com supresa que em suas listas de eleitores estavam nomes de desaparecidos da última Ditadura Militar argentina (1976-83), como o escritor Rodolfo Walsh e o guerrilheiro Mario Santucho. Os nomes não foram removidos, porque suas mortes nunca foram informadas oficialmente. Legalmente ainda estariam vivos, porque seus corpos jamais foram encontrados.
Os argentinos votaram com uma forte disposição para a mudança. Os motivos estariam na situação atual do país. Os dez anos de governo Menem proporcionaram o fim da inflação e uma grande abertura ao capital estrangeiro, embora com um grande custo social. O desemprego passou de 7% para 14,5% e a dívida externa aumentou de US$ 63 bilhões para US$ 150 bilhões, mesmo com a entrada para os cofres do Estado argentino de US$ 39 bilhões obtidos com as privatizações.
Segundo uma pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP), 82,7% dos argentinos votaram preocupados pelo desemprego. A corrupção é a segunda causa de preocupações dos eleitores (63,6%), seguido da falta de segurança (61,9%) e os baixos salários (42,4%).

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