Buenos Aires, 01 (AE) - Obstáculos para a aprovação do orçamento e do pacote tributário, graves conflitos sociais no interior e um poderoso sindicato de professores que não se dispunha a abandonar seu acampamento na frente do Congresso: estes problemas, herança do governo do ex-presidente Carlos Menem, tornaram difíceis os primeiros 20 dias de governo do novo presidente argentino, Fernando de la Rúa.
Mas, momentaneamente, essas nuvens pretas foram afastadas: pouco antes da virada do ano, De la Rúa conseguiu aplacar os protestos populares da Província de Corrientes, aprovar o orçamento nacional e o pacote tributário, que implicará em um oneroso peso aos contribuintes.
"Este pacote é consequência do estado em que o governo anterior deixou o país", desculpou-se De la Rúa, tentando colocar a culpa do descalabro fiscal no governo Menem. A aprovação das leis tranquilizou os mercados, que começavam a se exasperar diante da lerdeza que está caracterizando o governo da coalizão Aliança UCR-Frepaso.
Além disso, após 1.002 dias acampados na frente do Congresso, o sindicato dos professores removeu a "Carpa Blanca" (barraca branca). Ali, ao longo de quase três anos, milhares de professores fizeram greve de fome em turnos, pedindo aumento salarial.
A barraca foi considerada um dos principais motivos da derrota do peronismo nas eleições parlamentares de 1997. Durante o governo Menem, a barraca tornou-se o ponto de partida para manifestações populares.
Para evitar continuar com o conflito, De la Rúa conseguiu que por meio do novo pacote tributário fosse disposto um aumento salarial aos docentes de US$ 60. O presidente agora promete que depois será a vez dos aposentados, que poderiam sonhar com um aumento em sua esquálida receita.
Ao longo destes primeiros dias, os argentinos assistem um novo estilo de governo: sóbrio e discreto, diferente do modo luxuoso em que os funcionários "menemistas" ostentavam o poder. Como sinal de que os tempos são outros, o governo propôs reduzir os salários dos funcionários públicos. Como não existe uma lei federal que os regule, ocorriam peculiares discrepâncias: no interior do país, havia vereadores com salários de US$ 8.000, o dobro do salário presidencial.
Uma das envolvidas no escândalo dos altos salários foi Maria Julia Alsogaray, ex-diretora das privatizações durante o governo Menem, que nos últimos anos se encarregava da Secretaria de Meio Ambiente. Ela admitiu que recebia US$ 17.000, dos quais US$ 10.000 eram fundos especiais da secretaria para "gastos especiais", com os quais pagava "a escola das crianças", embora seus filhos tenham mais de 20 anos.
Nestes primeiros 20 dias do governo De la Rúa, floresceram as denúncias de corrupção contra "Mary Ju", como era denominada a ex-secretária, e também contra Victor Alderete, o polêmico ex-diretor da Previdência. Os dois tornaram-se os alvos preferidos e exclusivos do que Menem criticou como "caças às bruxas".
Ao longo desses primeiros dias, também definiram-se os novos líderes do Partido Justicialista (peronista), agora na oposição, após uma década contínua no poder. José Manuel De la Sota, governador da Província de Córdoba; Carlos Reutemann, da Província de Santa Fé e Carlos Ruckauf, da Província de Buenos Aires, são os integrantes da "troika" que - sem Menem na presidência - estão tentando comandar o partido. O trio, composto por jovens políticos vitoriosos nas recentes eleições, reuniu-se esta semana com De la Rúa.
Para o presidente, foi interessante posar pacificamente com o trio: a intenção era dar uma imagem de convivência harmônica com a oposição e mostrar ao país que nos dois lados da arena política há uma nova geração de líderes, diferentes aos "velhos" caudilhos que governaram o país desde a volta da democracia em 1983: os ex-presidentes Raúl Alfonsín e Menem. E esta foto "pour la gallerie" não era para menos, pois os três governadores juntos administram as províncias mais importantes do país, onde moram dois terços da população argentina. Além disso, controlam 40 deputados no Parlamento, fundamentais para De la Rúa aprovar qualquer lei.
No encontro, De la Rúa pediu-lhes apoio para aprovar a lei de emergência fiscal que será discutida no Parlamento em janeiro. De la Sota, Ruckauf e Reutemann, por seu lado, pediram a De la Rúa que faça algo para evitar o êxodo de empresas argentinas para o Brasil. O presidente disse que teria firmeza nas negociações com o Brasil e ordenou ao ministro da Economia que faça algo para impedir a mudança das indústrias locais para o vizinho do Mercosul.
Quem será o líder final do trio ainda é um mistério. Mas a luta visceral que o definirá ficará para depois: agora, unidos, precisam remover o protagonismo do ex-presidente Menem, que nos últimos dias ensaiou diversas tentativas de recuperar seu espaço na mídia.
Primeiro, Menem anunciou um "gabinete paralelo" e voltou a reunir seus ex-ministros, como se ainda estivesse na Casa Rosada. Depois, defendeu ex-assessores seus, envolvidos em graves casos de corrupção, como Alderete, acusado na semana passada de desvio de dinheiro e de espionagem de integrantes do círculo de De la Rúa.
A defesa de Alderete feita por Menem causou críticas dos próprios peronistas. "Esses personagens fizeram muito mal ao peronismo", sustentou o ex-candidato do partido à presidência do país, Eduardo Duhalde.
Para concluir a sequência de atos de alto impacto, Menem afirmou que pretendia reconciliar-se com sua ex-mulher, Zulema Yoma. A confissão de Menem era o que faltava neste entediante e escasso verão de fofocas sentimentais, o primeiro do governo da pouco exuberante aliança. "Que ele vá para a p... que p...", teria respondido a sincera ex-primeira dama, segundo a revista Veintidós.