De la Rúa completa cem dias com medidas polêmicas para tirar Argentina da recessão
De la Rúa completa cem dias com medidas polêmicas para tirar Argentina da recessão17/Mar, 23:22 Por Vladimir Goitia, enviado especial Buenos Aires (AE) - Cem dias depois de ter assumido a presidência da Argentina, com as contas do país completamente fora de controle, o índice de pobreza em níveis estratosféricos e uma das taxas de desemprego mais altas do mundo, Fernando de la Rúa conseguiu não só aprovar um duríssimo ajuste fiscal e uma polêmica reforma trabalhista como convencer, pelo menos até agora, o setor financeiro privado - nacional e estrangeiro - sobre a eficiência de seu plano econômico para sair da recessão. Pela primeira vez nos últimos 58 anos, por exemplo, os bancos privados decidiram liberar créditos hipotecários com prazos de 30 anos a 40 anos, taxas fixas de 9,5% ao ano e sem nenhum tipo de subsídio do governo federal. Desde o final da semana passada, uma verdadeira guerra de anúncios publicitários tomou conta de páginas de jornais e de outdoors nas ruas de Buenos Aires para seduzir mais de 1 milhão de argentinos em condições de contraer esse tipo de financiamento - em pesos ou em dólares - para concretizar o sonho da casa própria. Até agora, o prazo máximo de financiamento imobiliário não passava de 15 anos. Hoje, cada um desses argentinos poderá pagar prestação fixa de US$ 100 para cada US$ 10 mil financiados. Ou seja, um imóvel de US$ 50 mil, terá um custo mensal de US$ 500. "Este é um claro sinal de credibilidade na economia do país e nos procedimentos corretos que o governo vem adotando para conseguir sanear as contas públicas", disse o secretário de Defesa da Concorrência, Carlos Winograd, em entrevista exclusiva à Agência Estado. Quando assumiu o governo, no dia 10 de dezembro, o presidente De la Rúa herdou um déficit fiscal de US$ 9,3 bilhões (3,3% do PIB, incluindo o desastre nas contas das Pami/Prestaciones Asitenciales Médicas Integrales, a caixa das aposentadorias e pensões), uma taxa de desemprego de 14% (dados oficiais de outubro) e um índice de pobreza jamais vista na Argentina, onde os 10% mais ricos da população têm renda 24 vezes superior à dos 10% mais pobres. O resultado das contas públicas do ano passado foi US$ 4,2 bilhões acima do anunciado pelo então presidente Carlos Menem, que premaneceu à frente do país durante uma década, período em que a distribuição de renda ficou tão desigual, ou pior, do que em 1989, quando a hiperinflação pulverizou os salários dos argentinos, principalmente os de menores recursos. "As contas do governo estavam totalmente fora de controle", resumiu o ministro de Economia, José Luis Machinea, em rápida conversa com jornalistas estrangeiros no início da semana passada em Buenos Aires. Só no último trimestre do ano passado, período em que Menem se esforçava para eleger o candidato governista Eduardo Duhalde, o déficit das contas públicas foi engordado em US$ 3,3 bilhões. Somando esse resultado com o resultado negativo de US$ 3,7 bilhões das províncias (Estados), o déficit fiscal deixado pelo ex-presidente Mene m chegou a US$ 13 bilhões. Apesar dessa desordem econômica, o governo De la Rúa conseguiu que o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovasse um crédito stand by de US$ 7,4 bilhões. A Argentina não deve usar esse dinheiro, embora a primeira parecela desses recursos venha a estar disponível logo depois da primeira revisão das metas do primeiro trimestre, período em que o déficit fiscal não pode superar o teto de US$ 2,5 bilhões. Até o final de junho, as contas do governo não poderão superar um resultado negativo de US$ 2,69 bilhões e, até dezembro, de US$ 4,7 bilhões (US$ 4,5 bilhões das contas públicas e US$ 200 milhões das Pami). No ano 2001, a meta do déficit é US$ 2,8 bilhões e, em 2002, US$ 600 milhões, chegando a zero em 2003, segundo a lei de responsabilidade fiscal.





