Buenos Aires, 09 (AE) - Até o último minuto com o poder: o presidente Carlos Menem recusou-se a deixar antecipadamente a residência oficial de Olivos, impedindo assim que a nova família presidencial pudesse começar sua instalação.
"Tenho direito de ficar até o último minuto", disse o ainda presidente argentino, que amanhã (10) desfruta sua última manhã no cargo, e que somente sairá às 9h30 de Olivos, para esperar na Casa Rosada, a sede do governo, a chegada do novo presidente do país, Fernando de la Rúa.
Menem deixará uma década e meia de poder às 11h00 (12h00 de Brasília).
De la Rúa fará o juramento à Constituição no Congresso às 9h00 (10h00 de Brasília). O trânsito será fechado no centro de Buenos Aires, para permitir que De la Rúa, acompanhado de sua esposa, Inés Pertiné, trafeguem desde o Parlamento em um carro aberto pela avenida de Mayo até a Casa Rosada.
O governo, sem dinheiro, teve que pedir ajuda à prefeitura e à Igreja para conseguir grades de proteção para os 18 quarteirões que separam os dois lugares. Na Casa Rosada o estará esperando Menem, que lhe passará a faixa presidencial. Menem sairá da sede de governo, cumprimentará a guarda presidencial, e dará o último adeus.
Sem as mesmas paixões políticas que moveram a vida dos argentinos nas últimas décadas, calcula-se que amanhã a presença de populares nas ruas do cortejo seja mínima. Dificilmente se repetirá a posse do peronista Héctor Cámpora em 1973, quando um milhão de pessoas que se aglomeraram freneticamente entre o Congresso e a Casa Rosada impediram que o presidente pudesse ir até a casa de governo. A solução foi ir por baixo, usando a linha de metrô que passava sob a Avenida de Mayo: em um vagão que chacoalhava nos trilhos, Cámpora, o presidente chileno Salvador Allende e o presidente cubano Osvaldo Dorticós (na época Fidel Castro era primeiro-ministro), chegaram até a Casa Rosada.
Menos multidões, e menos convidados especiais. Menem não ia deixar a De la Rúa o prazer de ver um Salão Branco (o salão da posse) lotado de representantes de países de todo o mundo e políticos nacionais. Em vez das 800 pessoas que se aglomeraram na posse de Menem, De la Rúa somente poderá colocar 400 pessoas. É que há poucos dias, assessores de Menem informaram à estupefata equipe do novo presidente que o chão do Salão Branco está rachado, com a estrutura comprometida, e que se não quiser que desabe, melhor não carregar o lugar.
Na posse, estarão presentes 11 chefes de Estado e de governo, entre os quais o presidente Fernando Henrique Cardoso, o príncipe Andrew da Grã-Bretanha e o príncipe-herdeiro da Espanha, Felipe. Estava previsto que o presidente paraguaio Luis González Macchi assistiria a posse, mas com a possível presença do ex-general golpista Lino Oviedo em seu país, poderia retornar às pressas.
Menem está triste e cabisbaixo. Silvina Walger, autora de "Pizza com Champagne", best-seller que transformou-se no relato mais ácido da corte que acompanhou o presidente, considera que a partida doerá mais a Menem do que tenha doído a qualquer outro presidente."Ele desfrutava do poder. Para ele era uma festa, e agora acabou".
A exuberância "menemista fica evidenciada pela mudança de Menem: para trasladar sua roupa, teve que contratar dois caminhões de mudança. Além disso, poder retirar os presentes que recebeu ao longo destes dez anos de governo, "El Turco" precisou de outros cinco caminhões. Para sua biógrafa não-autorizada, Olga Wornat, "Menem não entende como as pessoas comemoram sua partida. Ele acha que elas devem lhe agradecer".
"El Turco", como é conhecido popularmente, foi o presidente que mais tempo governou ininterruptamente o país. Além disto, esta sexta-feira terá outra marca histórica: será a primeira vez que um peronista passa o poder a alguém da União Cívica Radical (UCR).
O peronista Menem, eleito em 1989 com um discurso que pregava a reconquista das Malvinas "a sangre y fuego", o "salariaço" e a "revolução produtiva", deixa a De la Rúa um país com uma das maiores taxas de desemprego da história (14%), o maior déficit fiscal e comercial, e a maior dívida externa (US$ 130 bilhões).
Em compensação, deixará a De la Rúa um país onde a inflação é um monstro do passado, e onde os constantes investimentos estrangeiros atingiram níveis nunca antes vistos. Graças à Menem também foram terminadas as disputas fronteiriças com o Chile, que em mais de uma ocasião, quase levaram os dois países à guerra. Além disso, foram retomadas as relações diplomáticas com a Grã-Bretanha. suspensas desde a Guerra das Malvinas.
Menem, que nas últimas três décadas nunca esteve fora do poder (com exceção do período do regime militar), terá que lutar por seu espaço político. Ele e Eduardo Duhalde, candidato derrotado do partido às recentes eleições presidenciais, disputam o comando do peronismo.
Mas além deles, existe outra geração de políticos que também ambicionam ser candidatos nas eleições de 2003: os governadores Carlos Reutemann, José Manuel de la Sota e Carlos Ruckauf.
Analistas consideram que ao contrário do que ocorreu em seu meio século de vida, o peronismo poderá ter mais de um líder simultaneamente. "Acabou a era dos caudilhos", costumam dizer. Desta forma, Menem seria somente uma liderança a mais no partido fundado pelo general Juan Domingo Perón.
Mesmo antes de deixar o poder, o peronismo já deu sinais de oposição: nesta semana, recusou-se a votar o orçamento nacional proposto por De la Rúa, considerado essencial para poder governar o país, e dar um sinal de confiança para os mercados internacionais. Para o governo De la Rúa já está acontecendo o pior: a derrota nas eleições presidenciais fracionou o peronismo, dificultando as negociações pela inexistência de uma liderança única.
De la Rúa terá pela frente dois anos complexos: em julho do 2000, serão realizadas as eleições para prefeito de Buenos Aires, onde o ex-ministro Domingo Cavallo, seu opositor, tem boas chances de vencer.
Além disso, terá que enfrentar um Senado com maioria peronista e uma Câmara de Deputados sem maioria própria. Mas a situação pode ser pior: se não proporcionar aos argentinos dois anos de recuperação econômica, poderia perder as eleições parlamentares de 2001 e ter os dois últimos anos de mandato em completa ingovernabilidade, como ocorreu com o ex-presidente Raúl Alfonsín.

mockup