Paris, 27 (AE) - Na França, a celebração do Natal é sempre acompanhada de neve, real ou simbólica, dependendo do ano. Este ano a neve não veio. Em seu lugar, vieram os ventos, o estrépito da tempestade, dos tornados e dos ciclones, um mar bravio, árvores arrancadas pelas raízes, tetos de casas voando pelo céu, carros esmagados e 44 mortos.
Em Paris, no Bois de Vincennes, as lonas de três circos alçaram vôo e desapareceram como num número de prestidigitação em que as coisas saem errado. Em Versalhes, no sublime parque projetado pelo grande jardineiro Lenotre para Luís XIV, centenas de cedros bicentenários, um "tesouro histórico", foram derrubados. Os vitrais da Sainte Chapelle, na ×le de la Cité, explodiram.
Se toda essa fúria tivesse acontecido nas Caraíbas, nos Estados Unidos ou no Japão, o impacto não seria assim tão surpreendente. A França, porém, é um país de clima moderado, que se orgulha do seu céu tremente, de seus prados tranquilos e de seus rios sonolentos.
O tornado do domingo, portanto, pode ser considerado um sinal de mau agouro, como uma punição. A tempestade coincidiu com uma segunda desgraça, isto é, com uma "maré negra" provocada pelo naufrágio de um petroleiro nas costas da Bretanha, que lançou seu óleo mortal sobre as praias, peixes e pássaros.
E as autoridades o que fizeram? Gozavam férias. O presidente Jacques Chirac estava no Marrocos, o primeiro-ministro Lionel Jospin, no Egito; a ministra do Meio Ambiente, Dominique Voynet, na Ilha de Reunião. Nem um ministro, nem mesmo um secretário de Estado deu as caras nos lugares atingidos.
Sacudida com o barulho feito pela imprensa, Voynet interrompeu finalmente suas agradáveis férias e desembarcou na Bretanha devastada. Sentindo-se culpada, justificou do alto de sua tremenda arrogância o seu dolce farniente e seu luxuoso descanso: "Mas na Venezuela foi pior ainda!" Claro, dez vezes, cem vezes pior. Mas as pessoas que tiveram suas casas destruídas ou que perderam seus filhos não entendem por que a tragédia da Venezuela deva amenizar a sua. Voynet, diga-se de passagem é ministra da França, não da Venezuela.
O caso dessa ministra não é importante. Ela se enrolou em suas bobagens como os patos que ficaram com as asas impregnadas do óleo mortal. Em compensação, a distração e a moleza dos políticos sérios prejudicam a imagem, já tão denegrida no mundo inteiro, da classe política. Quando um povo é atingido, seus líderes devem se colocar imediatamente ao seu lado e desempenhar seu papel simbólico. Essa tempestade nos permitiu constatar uma estranha regra, ou seja, a pouca lembrança que têm os homens das grandes catástrofes naturais.
Toda vez que o tempo se descontrola, e com a ajuda da imprensa
vemo-nos diante de um acontecimento histórico que não ocorre há cem anos, há mil anos!
Em 1999, as costas da Bretanha foram varridas por ventos de 180 km/h, talvez até 200 km/h. Ora, se folhearmos as efemérides, ficamos sabendo que em 1987 o esse mesmo local foi atingido por ventos de 220 km/h. Em janeiro e março de 1990, as rajadas fizeram mais de 200 mortos na Europa, e só na França foram 80 as vítimas. Naquele mesmo ano, os ventos derrubaram 8 milhões de árvores na floresta francesa. Isso não diminui em nada a amplitude do desastre do Natal, mas nos faz lembrar que a Europa e a França também são vulneráveis à violência da natureza e precisam de planos de emergência mais consistentes. A realidade, porém, acaba sendo esquecida e transformada. Nada é mais volátil e infiel do que a lembrança que se tem do clima.

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