David Lynch muda radicalmente e surpreende Cannes Do enviado especial LUIZ CARLOS MERTEN
Cannes, 21 (AE) - David Lynch, quem diria, abdicou de suas fantasias e obsessões. É um dos grandes diretores que estão surpreendendo os críticos do 52º Festival International du Film por suas mudanças radicais. Outro é Takeshi Kitano. Kikujiro e The Straight Story são um tanto inesperados, para dizer-se o mínimo. Kitano queria mudar seu estilo. Chegou à conclusão de que, para isto, teria de mudar de história. O resultado, Kikujiro, é um dos filmes mais elogiados deste festival, embora metade da crítica brasileira o tenha detestado. Houve até quem o comparasse a uma comédia dos Trapalhões - Bongo, o Vagabundo.
Lynch não queria mudar, pelo menos de forma consciente, mas sentiu-se arrebatado pelo script de The Straight Story, que lhe foi enviado por um agente. Imediatamente quis fazer o filme, assumindo-o como um desafio, uma mudança de rumos que ele próprio não consegue dizer se será permanente. Para falar sobre esse filme é preciso começar falando do título. Admite duas ou três interpretações. The Straight Story é a história de Alvin Straight, um velho que viaja 550 quilômetros num minitrator para visitar o irmão enfermo. Straight também quer dizer real - o filme narra uma história verdadeira. E é "straight" (direito, correto) em oposição aos filmes tortos que compõem a maior parte da obra de Lynch.
É um bom filme, não resta dúvida. Bem-feito, bem construído, sugerindo uma mistura de Harry e Tonto, de Paul Mazursky (sem o gato), e Umberto D, de Vittorio De Sica (sem o cachorro). Mas também é um filme que produz um certo incômodo. Straight coloca o pé na estrada, enfrenta problemas com o seu meio inusitado de transporte, mas só encontra gente bondosa e solidária, disposta a ajudá-lo. Depois de dedicar tanto tempo ao estudo das perversões, Lynch descobriu a bondade. Revela uma visão otimista (ele prefere dizer que é humana) da América. No fim, Straight, interpretado por Robert Farnsworth, encontra o irmão. São apenas dois ou três minutos de Harry Dean Stanton, que o ator marca com o carisma de quem pertence à história do cinema (especialmente por Paris, Texas, de Wim Wenders).
O cineasta diz que quis fazer o filme porque se sentiu tocado pelo protagonista. Gostaria de tocar o maior número possível de espectadores. Pela quantidade de aplausos no fim da sessão, Lynch talvez consiga atingir seu objetivo. O mais inusitado nesse filme é que vai contra a corrente. No momento em que o cinema americano se volta para o público jovem, Lynch vem com um filme sobre gente velha. Ainda bem que não é nada parecido com a trivialidade da série Dois Velhos Rabugentos (com Jack Lemmon e Walter Matthau). Há uma riqueza muito grande de observações sociais e humanas, por mais que o tom idílico possa parecer excessivo, como se Lynch, depois de anos de piração pelo mal, tivesse subitamente pirado para o lado do bem.
Resta saber se Lynch terá a Palma de Ouro. O festival termina no domingo à noite. Se o júri fizer a coisa certa, vai dar a palma para Pedro Almodóvar: Tudo sobre Minha Mãe é o mais rico e complexo dos filmes da competição. Mas o júri é presidido por David Cronenberg e todo mundo teme pelo resultado porque não há nada menos parecido com Almodóvar do que Cronenberg. A verdade é que talvez não sejam tão opostos. Numa cena de Tudo sobre Minha Mãe, o travesti conta quanto lhe custou (em dinheiro e sacrifício) para virar uma mulher. É um tema caro a Cronenberg: as transformações do corpo que transformam as pessoas em aberrações aos olhos de seus semelhantes.
Manoel de Oliveira não obterá a palma. Nos últimos anos, o mestre português tem-nos acostumado a um ritmo binário. A um grande filme segue-se outro decepcionante. Foi assim com o belo Viagem ao Princípio do Mundo, ao qual se seguiu O Convento. Ao belo Inquietude segue-se agora A Carta, que se inscreve no ciclo dos amores frustrados do diretor. O público passou todo o tempo da sessão rindo. Não é a reação adequada diante de uma tragédia. Fora de concurso, Spike Lee fez a coisa certa. Summer of Sam, sobre o serial killer nova-iorquino dos anos 70, talvez seja seu melhor filme dos últimos anos, mas esta não é uma opinião unânime. Metade da crítica detestou-o.





