Dançarina acusa bispo de racismo no Rio; religioso depõe na sexta
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2000
Por Roberta Pennafort, especial para a AE 
Rio, 12 (AE) - O bispo de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, dom Werner Siebenbrock, depõe na próxima sexta-feira no inquérito instaurado na 57ª Delegacia Policial de Nilópolis em que ele é acusado de racismo por uma dançarina negra. Além do bispo, o padre Geraldo Magela, da Igreja de São Sebastião de Olinda, também será ouvido no inquérito policial. De acordo com a denúncia da dançarina Hosana Andrade, de 23 anos, o bispo teria proibido seu casamento com o empresário alemão Gerd Corsten, de 39 anos. A cerimônia seria realizada na sexta-feira passada na Igreja de São Sebastião de Olinda. Representantes da Igreja negam as acusações e afirmam que a casamento não foi realizado porque faltavam documentos necessários para o ato.
Por ordem do bispo, o padre Magela não abriu as portas da igreja para o casamento, na noite do dia 07, mesmo com a presença dos noivos, trajados a caráter, familiares e convidados. Revoltado, o casal foi prestar queixa na delegacia, acusando os religiosos de preconceito. Ao delegado átila Lafere contaram que dias depois de a cerimônia ser marcada, o bispo tentou dissuadir Corsten da idéia, alegando que "não daria certo". Hosana disse ainda que foi ofendida, chamada de "interesseira" e "mal educada" - o oposto de Costern (que é loiro e tem olhos azuis), definido pelo bispo como "simpático"
"inteligente" e "bonito". Documentos - A proibição, segundo a Diocese de Nova Iguaçu, não foi causada pela diferença de cor dos noivos. A causa teria sido a ausência da documentação necessária ao casamento, como certificado de batismo e certidão de nascimento, que mostra se os dois foram ou não batizados na Igreja Católica e também se já são casados no civil e no religioso com outras pessoas. De acordo com o delegado, Hosana alega que a cerimônia já estava marcada havia um mês - período necessário para a tramitação dos proclamas. A dançarina disse que o bispo a chamou de "pagã".
Hoje, dom Werner não foi encontrado pela reportagem na Cúria de Nova Iguaçu, nem o padre Magela, em sua paróquia. O chanceler da Diocese de Nova Iguaçu, padre Sérgio Bernardi, disse que, "aos olhos da Igreja, não existe diferenciação entre negros e brancos". "Não existe e nunca vai existir impedimento de casamento entre raças em lugar algum no mundo", afirmou o chanceler. "No caso de Hosana, não havia condições de realizar a cerimônia sem a documentação de praxe", ressalvou.
Bernardi disse que os noivos haviam sido informados de que não poderiam se casar sem entregar todos os papéis. Ele contou que, como Hosana disse que não era batizada, foi pedido então uma certidão de batismo de Costern, que, segundo o chanceler, não cumpriu as determinações da igreja. "Mandamos faxes para a cidade onde ele nasceu, na Alemanha, pedindo registros de nascimento e de batismo, mas não obtivemos resposta", contou.
O chanceler disse ainda que os noivos não avisaram aos convidados que não haveria casamento com o intuito de forjar o suposto preconceito do bispo. "O tempo todo dissemos a eles que não era permitido se casar na Igreja Católica sem os certificados", disse Bernardi. "Está parecendo que eles foram para a paróquia no dia e na hora marcada para tentar nos culpar por um erro deles, e inventar um racismo inexistente". Acusações - Hosana se apresenta como dançarina nos shows do cantor Lou Bega, que faz muito sucesso em países europeus e nos Estados Unidos. Ela contou à polícia que dom Werner insinuou que ela era prostituta, e atribuiu a afirmação ao fato de ela se vestir com roupas insinuantes e fazer coreografias sensuais. "Hosana contou que o bispo (que nasceu na Alemanha e é loiro de olhos claros) falou em alemão com Costern que ela queria se casar com ele porque ele era rico e branco, dias antes da data marcada paa o casamento", disse o delegado. O casal não foi encontrado para dar entrevista.


