São Paulo, 8 (AE) - A desvalorização do real - até agora em torno de 30% - deve provocar um aumento de 10% a 15% das exportações brasileiras aos seus parceiros no Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai) e uma queda na mesma proporção das importações agrícolas e produtos industrializados desses países. A avaliação é do vice-presidente executivo da Associação das Empresas Brasileiras do Mercosul (Adebim), Michel Alaby.
A conta dos argentinos, entretanto, excede em mais de três vezes os porcentuais previstos por Alaby. Um informe citado hoje (segunda-feira) pelo jornal "Clarín" como reservado diz, por exemplo, que as importações argentinas do Brasil cresceram 54% apenas em janeiro, embora a crise do real tenha estourado somente no dia 13. Certa ou não, as estatísticas argentinas serão utilizadas esta semana pelos técnicos do governo Menem para tentar convencer o Brasil a oferecer "compensações" que evitem distorções excessivas na balança comercial entre os países do Mercosul.
Se confirmadas as previsões de Alaby, que também é vice-presidente da Câmara árabe Brasileira de Comércio, o Brasil poderá reverter o défict comercial com a Argentina de US$ 1,28 bi, no ano passado, para um superávit entre US$ 600 milhões e US$ 935 milhões (ver tabela logo abaixo). O mesmo deve ocorrer com o Uruguai, passando de um déficit de US$ 167 milhões para um superávit de US$ 123 milhões. Já com o Paraguai, o superávit deve ficar ampliado de US$ 1,06 bilhõa para US$ 1,139 bilhão.
Por isso, o governo argentino quer que o Mercosul crie "mecanismos permanentes" para proteger o mercado regional de flutuações menetárias dos países membros. Um exemplo seria utilizar alíquotas de importação de tal forma que possam compensar os preços relativos dos exportadores assim que uma moeda, como o real, venha a ser desvalorizada. Na prática, o eufemismo utilizado pelos argentinos quer dizer "taxas as exportações" ou "elevar as alíquotas de importação" para produtos provenientes de países afetados pela desvalorização.
Porém, as exigências argentinas não param por aí. O presidente Menem, que vai se encontrar com Fernando Henrique Cardoso nesta sexta-feira em Campos do Jordão, espera que o Brasil elimine também o que os argentinos chamam de subsídios às exportações. A Argentina quer que o Proex não beneficie as vendas de produtos brasileiros que entram naquele mercado. Isso siginifica que, se o "mecanismo" proposto pelos argentino for aprovado nas negociaçõas que começam esta semana e podem concluir com a visita de Menem, os produtos exportados por um país que desvalorizou a sua moeda teriam de sofrer uma taxação.
Para Alaby, o mais certo, no momento, seria estabelecer um modelo de "restrição voluntária" para os produtos mais sensíveis e fáceis de controlar, como automóveis, ao e petroquímicos. "Se a idéia é equlibrar a balança comercial, um controle voluntário sobre esses setores, somado a um aumento de compra de petróleo e trigo, por exemplo, seria uma solucão", disse Alabay. De acordo com ele, o modelo de restrição voluntária deu certo na década de 80 entre os Estados Unidos e o Japão. Albay não credita que o aumento das exportaçõs do Brasil aos seus sócios no Mercosul superem os 15%. Os empresários argentinos, entretanto, acreditam em uma "avalanche" de produtos brasileiros, razão pela qual pressionam o governo para impor barreiras, sejam elas tarifárias ou não.
Para atenuar as reclamações do setor industrial argentino, o governo Menem já definiu alguma medidas não tarifárias que devem brecar as importações de produtos brasileiros e tornar os argentinos mais competitivos. Foi definido, por exemplo, a redução de 8% nos encargos sosciais em folha de pagamento.
Estabeleceu-se ainda um novo regime de importação para bens de capital não produzidos nos países do Mercosul. Esses equipamenrtos, por exemplo tiveram a sua tarifa reduzida de 14% para 6%. O governo argentino criou ainda um formulário obrigatório para a importação de produtos sensíveis. Embora já exista provisorioamente para alguns itens, como calçados e têxteis, esse formulário deve ser estendidos para alimentos, produtos farmacéuticos e bens de consumo de uma forma geral. Para Alaby, a imposição de barreiras não tarifárias incentivam o atrito entre os sócios e desgastam a imagem do Mercosul na comunidade internacional. Comércio do Brasil com o Mercosul (em US$ milhões)
Argentina Paraguai Uruguai Exportaç/98 6.747 1.249 881 Importaç/98 8.028 349 1.048 Saldo/98 (1.281) 900 (167) Saldo/99* 935 1.139 123 * Previsão do saldo para 99 com crescimento de 15% das exportações brasileiras e queda de 15% em suas importações.

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