Marcos NegriniDedicadasTrês alunas atentas à lição em Maringá; grande interesse levou universidade a ampliar programa CAMPO MOURÃO - Que tal voltar à escola depois dos 45 anos? Essa é a proposta da Faculdade da Terceira Idade, mantida há quatro anos pela Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (Fecilcam). As aulas acontecem duas vezes por semana e duram duas horas. Não há provas, mas é exigida uma frequência regular.
Por isso, os membros do Clube da Terceira Idade de Peabiru (12 quilômetros ao norte de Campo Mourão) tiveram que optar entre os bailes que a instituição promove toda quinta-feira ou as aulas. ‘‘Eles ficaram numa situação difícil’’, reconhece a coordenadora do projeto, a professora Rosane Schmidt.
Nada impede, no entanto, que pelo menos 40 idosos compareçam religiosamente às aulas na faculdade. Pelo menos metade vem de Araruna (19 quilômetros ao norte de Campo Mourão), onde a prefeitura manda um ônibus com ‘‘estudantes’’. É o caso do agricultor aposentado Lucas Manoel da Rosa, de 77 anos, o mais velho aluno da turma.
‘‘Estou gostando muito de todas as aulas’’, conta. ‘‘Não vou parar mais’’. Mas nem só de aula vive Lucas. Ele também participa de todas as promoções da terceira idade em Campo Mourão, Peabiru e Araruna. ‘‘Onde tiver baile, eu vou’’, garante. Com tanta animação, ele já conseguiu até uma namorada.
‘‘Já tivemos casos de alunos que superaram um período de depressão depois que ingressaram na faculdade’’, conta Rosane. As matérias lecionadas, porém, estão longe do currículo básico. Elas atendem os interesses da terceira idade e, como a gerontologia, por exemplo, ministrada pela médica Maria Beatriz Mildenberger.
No currículo, estão ainda filosofia, turismo, psicologia, relações humanas, expressão corporal, enfermagem, publicidade e propaganda, cultura geral e do Brasil, canto, teatro e direitos do idoso. Parte dos professores vem da própria Fecilcam, mas a maioria é convidada, sem salário.
A princípio, o projeto para a terceira idade previa cursos com duração de um ano e meio, mas surgiu um problema. ‘‘Muitos que começaram não quiseram parar mais’’, explica Rosane. Arlete Gonçalves de Oliveira, 57, e Zelinda Nardi da Silva, 68, por exemplo, estão na faculdade há três anos.
‘‘Terminamos e começamos de novo’’, ressalta Zelinda. Idade, nessa turma, ninguém esconde. ‘‘Não adianta esconder, os cabelos contam’’, brinca Arlete. Rochael de Oliveira, 72, mora em Maringá, mas aproveita a visita aos filhos, em Campo Mourão, para frequentar a faculdade da terceira idade.
Espera da Morte ‘‘Estou encontrando algo que nunca tinha visto na vida’’, declara. ‘‘Antes, os velhos só esperavam a morte’’. Rochael diz que nunca parou de estudar, apesar de estar fora da sala de aula ‘‘Sempre procurei me aprofundar’’, conta.
Acy Antônio da Silva, 65, resolveu entrar na faculdade depois que se aposentou, no ano passado. ‘‘Vou fazer agora a faculdade que não tive oportunidade de fazer quando era jovem’’, frisa. Além da faculdade, Silva administra uma microempresa de conservas, apresenta um programa evangélico no rádio e se matriculou num curso de violão.
‘‘Nunca gostei tanto da vida quanto agora’’, confessa. Já Rochael não perde o bom humor. ‘‘Posso morrer dentro de cinco minutos, mas será contra minha vontade’’. Vontade de estudar é o que não falta. No ano passado, a turma chegou a pedir que a coordenadora retirasse um professor que não estaria ‘‘acrescentando nada’’. ‘‘Eles podem não ter estudado, mas têm leitura de mundo’’, diz Rosane. ‘‘Por isso, formam uma clientela exigente’’.
Outras oito cidades do Estado mantêm projetos semelhantes: Londrina, Ponta Grossa, Curitiba, Jacarezinho, Cornélio Procópio, Palmas, União da Vitória e Cascavel.

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