Brasília, 29 (AE) - O arcebispo-emérito de São Paulo, cardeal d. Paulo Evaristo Arns, criticou hoje a concessão, por liminar do ministro Nelson Jobim, do Supremo Tribunal Federal (STF), de auxílio-moradia que pode variar até R$ 3 mil para os juízes federais, militares e do Trabalho. "Achei que o auxílio não era a solução que deveria ter sido dada", disse d. Paulo.
Para ele, o "jeitinho" encontrado pelo STF para resolver a questão salarial dos juízes "é uma afronta ao trabalhador brasileiro, que vive de salário mínimo". O arcebispo avalia que o STF deveria reavaliar a aplicação do benefício, que provoca indignação da população.
D. Paulo reuniu-se hoje com o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), para tratar sobre a votação da emenda constitucional que vincula recursos dos Estados e municípios para a saúde, a exemplo do que ocorre na educação. Pela emenda, os Estados terão de atingir 12% em investimentos na área de saúde em cinco anos.
Os municípios - que aplicam 7% das receitas no setor - devem ampliar a participação para 15% no mesmo período.
Apesar de reconhecer que os juízes estão sem aumento de salários há cinco anos, d. Paulo disse que "os operários teriam muito mais direito de reclamar" por aumentos salariais. "Viver num País onde uns ganham um salário mínimo e outros mais de cem, é uma injustiça clamorosa", criticou. O cardeal também defendeu a revisão imediata do valor do salário mínimo. "Para que possamos ser mais justos com quem trabalha."
O cardeal previu que a concessão de auxílio-moradia aos juízes poderá desencadear um clima de revolta entre os trabalhadores brasileiros. Ele entende que o Judiciário, ao invés de oferecer o benefício aos membros, deveria ter buscado outras formas de compensar as perdas salariais dos magistrados. "O auxílio-moradia não é a forma mais adequada para isso", sentenciou.