D. Jayme Chemello diz que governo deve ouvir o povo
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quinta-feira, 26 de agosto de 1999
Por Hugo Marques (especial para a AE) 
Brasília, 27 (AE) - O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Jayme Chemello, disse hoje, ao fazer uma análise da Marcha dos Cem Mil, que o governo precisa "ouvir o povo" e rever a política econômica. O presidente da CNBB afirmou que o povo brasileiro não votou num modelo econômico sem distribuição de renda e emprego.
O principal coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, disse que os militantes de movimentos sociais e de partidos de esquerda marcharam contra a política econômica.
D. Jayme afirmou ainda que o presidente Fernando Henrique Cardoso precisa dialogar mais com quem o elegeu para rever o modelo econômico e criar uma política social. "Quando surgiu o real o povo recebia mais dinheiro", disse d. Chemello, "e agora o dinheiro evaporou".
A avaliação da Igreja Católica é que o número de manifestantes que participou da marcha surpreendeu a todos. D. Jayme disse que a marcha só não contou com mais integrantes porque muita gente ainda não acredita em manifestações populares e outros não têm condições para sair do respectivo Estado e protestar em Brasília. "Se o povo achasse que a marcha fosse resolver e tivesse dinheiro", disse d. Jayme, "viriam entre 10 e 15 milhões de pessoas para Brasília".
A CNBB defende uma revisão do processo de privatização e de impostos que não estão cumprindo a função social. D. Jayme disse que a área de saúde "não sentiu" a criação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e a população está pagando caro por serviços que não apresentam melhorias. "O telefone não melhorou", disse. D. Jayme acredita que governo e Congresso ainda não econtraram formas para melhorar a vida da população. O presidente da CNBB defendeu reforma política e tributária para introduzir mais o conceito de ética na política e aliviar a carga de impostos que o povo paga. "Você entende que um banco contribua com impostos menos que 1 quilo de macarrão?", questionou o bispo.
Stédile disse que a marcha vai forçar o governo a rever a política econômicapara gerar mais empregos e fazer uma reforma agrária mais ampla. Stédile disse que o MST vai propor uma "paralisação nacional" quando a marcha dos sem-terra chegar a Brasília, no início de outubro. A CNBB analisa a possibilidade de apoiar a manifestação, que consistiria em paralisar toda a produção nacional por um dia, quando seriam realizados protestos em todo o País.
"Nosso objetivo é parar o Brasil por um dia", disse Stédile, "para que todos os brasileiros façam manifestações contra a política econômica do governo". O principal coordenador do MST afirmou que a marcha representou "um marco da união dos movimentos populares de massa no Brasil". Stédile acredita que surgirão novos líderes de oposição a partir da luta por melhores condições de vida.
D. Jayme disse que a paralisação será discutida pela CNBB. "Uma parada de reflexão", disse ele. O presidente da CNBB disse que as autoridades que formulam a política econômica no Brasil deveriam viajar mais para ver a situação de "angústia" em que vive o povo. "Eu já visitei todos os assentamentos e todos os bairros de minha cidade", disse.


