D. Geraldo critica política econômica
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quarta-feira, 10 de março de 1999
Luiz Francisco e Chistianne González Agência Folha 
Em sua primeira entrevista coletiva, o novo arcebispo de Salvador, d. Geraldo Majella Agnelo, 66 anos, criticou a política econômica implantada no Brasil pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. É uma grande preocupação para a igreja que a preservação do plano (Real) seja à custa do desemprego e um maior sofrimento para a população. Não tenho capacidade técnica para avaliar isso, mas acho que a igreja tem de alertar que o homem não pode ser relegado a segundo plano, disse o arcebispo, ontem pela manhã.
Para d. Geraldo, a preservação da estabilidade econômica não pode alijar os brasileiros do mercado de trabalho. Trabalho, saúde e educação para todos são as grandes preocupações. Não se pode proteger alguns particulares e interesses, afirmou.
O novo arcebispo de Salvador, que toma posse oficialmente hoje à noite, aproveitou a entrevista coletiva para criticar também a distribuição de renda no Brasil. Para o mundo, é um escândalo a distribuição de renda no Brasil, onde poucos têm muito e muitos não têm nada. Nos planos econômicos, a justa distribuição de renda não pode deixar de acontecer. Senão, é um paliativo que beneficia poucos.
O substituto de d. Lucas Moreira Neves na Arquidiocese de Salvador disse ainda que estava trabalhando na Itália quando o real sofreu a sua primeira grande desvalorização. Senti muita aflição quando vi periclitar esse plano, sobretudo com o perigo da inflação e do desemprego. A igreja não tem alternativas para oferecer ao governo, mas queremos o bem da pessoa, do homem, e não de alguns ou de algumas instituições. D. Geraldo disse também que o trabalho é um direito do homem para poder se sustentar com seu próprio suor.
O novo arcebispo de Salvador defendeu o entendimento entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador de Minas, Itamar Franco (PMDB). Gostaria muito que houvesse o entendimento entre os dois (FHC e Itamar Franco). Todos que têm parcela de responsabilidade devem ajudar o Brasil a superar a crise, disse o arcebispo.
D. Geraldo comentou também o trabalho desenvolvido pelo padre Marcelo Rossi. O que conheço do padre Marcelo Rossi é a sua grande capacidade de comunicação. Isso é invejável, ressaltou. Para o novo arcebispo de Salvador, os métodos utilizados pelo padre Marcelo Rossi durante as cerimônias religiosas (música e dança) não devem ser combatidos. Não cremos que só intelectualmente se faz a fé, disse o arcebispo.
Ele disse ainda que ficou surpreso com a decisão do papa João Paulo II de nomeá-lo arcebispo de Salvador. Não podia esperar vir para Salvador, mas sou um soldado. Nunca discuti nenhuma nomeação em mais de 41 anos de sacerdócio, acrescentou.
D. Geraldo disse também que é favorável a um entendimento entre a igreja e os homossexuais - seu antecessor, d. Lucas Moreira Neves, nunca recebeu em audiência os líderes do GGB (Grupo Gay da Bahia). Sem citar o nome do GGB, d. Geraldo disse que a igreja deve dar atenção a todos os segmentos da sociedade.
A agenda de d. Geraldo previa para ontem à noite um jantar com bispos e sacerdotes. Hoje, o novo arcebispo de Salvador vai visitar o Hospital Santo Antônio (cidade Baixa). Amanhã, d. Geraldo vai celebrar uma missa na igreja do Bonfim, uma das principais atrações turísticas da capital baiana.


