São Bernardo do Campo, SP, 07 (AE) - A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical conseguiram parar hoje as montadoras de São Paulo, numa greve que envolveu pelo menos 70 mil trabalhadores. Mas obtiveram pouca adesão ao protesto que fizeram em frente da sede da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A maior parte dos operários nem saiu de casa por saber antecipadamente sobre a greve. Cerca de dois mil, na maioria militantes dos sindicatos, lotaram os ônibus que foram do ABC, São Paulo e interior para a sede da Associação das Montadoras, no bairro de Moema.
O ineditismo do movimento de hoje ficou por conta de ter conseguido, mais uma vez, reunir as duas centrais sindicais rivais. CUT e Força Sindical estão unidas numa estratégia que chamam de "festival de greves", que está paralisando as montadoras uma vez por semana, em sistema de rodízio por Estados. Mas mais inédita ainda foi a ocupação da sede da Anfavea por um grupo de pelo menos 100 trabalhadores durante a tentativa de negociação entre os sindicalistas e os representantes da entidade.
A mobilização começou de madrugada, nas portas das fábricas. O grupo liderado pela CUT juntou alguns ônibus nas portas das fábricas de São Bernardo do Campo e do interior. A Força Sindical foi buscar militantes em São Caetano do Sul, também no ABC e em São Paulo. Os trabalhadores deixaram as fábricas por volta das 8h e seguiram para a sede da Anfavea, onde se juntaram por volta das 10h. Um ônibus trazendo metalúrgicos de Betim, Minas Gerais, onde está instalada a Fiat, viajou a noite inteira para aderir ao movimento.
Os carros de som interromperam o trânsito na Avenida Indianópolis e montaram até um palco com música axé e forró. As primeiras palavras de ordem surgiram quando o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, subiu no carro de som: "Nós vamos arrancar o contrato coletivo na marra". As lideranças das duas centrais estão unidas por um contrato coletivo de trabalho nas montadoras de todo o País.
A principal reivindicação é fixar um piso único em todas as montadoras do País. Hoje as diferenças de salários chegam a 150%. A direção da Anfavea se recusa a negociar e argumenta que os trabalhadores devem procurar as respectivas empresas separadamente. Os fabricantes de veículos dizem que não é possível pagar nas cidades onde estão instalando as novas fábricas os mesmos salários do ABC e do Vale do Paraíba, onde estão concentrados os maiores ordenados de metalúrgicos.
Visita à Anfavea - Uma comissão formada por Luiz Marinho
o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o presidente nacional da CUT, Vicente Paulo da Silva, presidente da Confederação dos Metalúrgicos da CUT, Heiguiberto Navarro, e representantes dos sindicatos de metalúrgicos de São Paulo decidiu entrar na Anfavea para tentar negociar. Os representantes da Anfavea estavam preparados para receber apenas essa comissão. Mas não impediu que um grupo de mais de 100 metalúrgicos entrasse junto com os líderes.
Parte dos manifestantes se acomodou no auditório da entidade, onde cabem 70 pessoas. O restante espalhou-se pelo hall da casa. Marinho, Paulinho e Vicentinho subiram na mesa, que tradicionalmente serve para reunir os dirigentes da indústria automobilística. Depois disso foram para uma sala com diretores da entidade. Enquanto esperavam seus líderes, os metalúrgicos aproveitaram o tempo para espalhar bandeiras da CUT e da Força Sindical pelas paredes. Outros conversavam e bebiam pinga. Houve até um que carregou violão e resolveu tocar dentro da sede das montadoras.
Escondido - A reunião durou mais de uma hora. Dois policiais militares entraram na casa, dizendo que estavam ali apenas por medida de precaução. Os líderes sindicais foram recebidos pelo diretor executivo da Anfavea, Paulo Sotero, e outros representantes da entidade. Os sindicalistas ficaram irritados com a ausência do presidente da Anfavea, José Carlos Pinheiro Neto. Encontrou-se, portanto, alternativa de fazer contato entre Marinho e Paulinho e Pinheiro Neto por telefone.
O presidente da Anfavea se comprometeu, então, a mais uma vez levar a reivindicação dos trabalhadores aos presidentes das montadoras e dar uma resposta nos próximos dias. Após a reunião, em discurso no carro de som, os sindicalistas criticaram a postura da Anfavea. "O todo poderoso Pinheiro Neto fugiu e deixou um testa de ferro para negociar com a gente", disse Vicentinho.
O movimento fez com que mais de quatro mil veículos deixassem de ser produzidos hoje. A mobilização afetou parcialmente a indústria de autopeças. Mas os representantes das empresas do setor, do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes Automotivos (Sindipeças), não chegaram a fazer um balanço de quantos trabalhadores pararam. A Anfavea confirmou parada total das linhas de montagem em São Paulo. Os sindicalistas disseram que se a Anfavea continuar se recusando a negociar, o festival de greves vai continuar.
Na próxima semana eles pretendem paralisar as fábricas do Paraná, onde está a maior parte das novas montadoras, como Renault e Chrysler, além da Audi. Disseram ainda que vão voltar na Fiat em protesto contra a postura da empresa, que, em razão da greve na semana passada suspendeu seis dirigentes sindicais por 30 dias. Os sindicalistas também pediram uma audiência com o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, para protestar contra a ação da Polícia Militar durante um confronto com os trabalhadores de Betim, que resultou em dois feridos a bala.

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