A recente aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) do uso emergencial de dois novos medicamentos para o tratamento da Covid-19 não deve alterar o grave quadro da pandemia no Brasil em curto prazo. É o que afirmam médicos especialistas ouvidos pela reportagem da FOLHA. Apesar de terem opiniões distintas sobre a real efetividade dos novos tratamentos, os médicos destacam a importância de novas ferramentas para combater o vírus que já matou mais de 380 mil brasileiros em pouco mais de um ano de pandemia.

Imagem ilustrativa da imagem Custo e limitações podem dificultar novos tratamentos contra a Covid-19

Tanto o Regn-COV2, aprovado no último dia 20, quanto o Rendesivir, liberado emergencialmente em 12 de março, são específicos para determinado grupo de pacientes e o alto custo da importação pode dificultar que sejam oferecidos pelo SUS. O uso das medicações é restrito a hospitais e sob prescrição médica, e a venda é proibida em farmácias.

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Apesar da aprovação da Anvisa, caberá ao Ministério da Saúde decidir se vai incorporar os medicamentos ao tratamento no país. Ou seja, as medicações devem demorar alguns meses para chegar ao país.

“Acho bom termos os medicamentos disponíveis, mas serão utilizados em uma minoria de pacientes, seja por custo elevado e baixa disponibilidade, seja porque ambos têm indicações precisas (só benefício em alguns grupos de pacientes)”, avalia o médico infectologista e docente da disciplina de moléstias infecciosas do HU (Hospital Universitário) de Londrina, Walton Luiz Del Tedesco Junior.

“A aprovação pela Anvisa mostra que o Brasil está alinhado ao mundo com a busca de soluções eficazes para o tratamento da doença, que sejam respaldadas cientificamente e que possuam implicações determinantes na morbimortalidade, notadamente nos pacientes mais graves”, frisa o médico nefrologista René Scalet dos Santos Neto, que é diretor de defesa profissional da Sociedade Paranaense de Nefrologia e membro do Conselho Consultivo do iNESCO (Instituto de Estudos em Saúde Coletiva). Ele ressalta que ambas as drogas “vêm sendo empregadas em hospitais de todo o mundo com resultados promissores”.

O Regn-COV2, nome comercial dos remédios biológicos casirivimabe e imdevimabe, é indicado para pacientes infectados pelo novo coronavírus, que apresentem infecção leve a moderada e que não estão internados, nem precisando receber suplementação de oxigênio. Nos Estados Unidos, o custo do tratamento estimado pela fabricante (Regeneron) é de US$ 3 mil o frasco do remédio.

Já o Rendesivir é indicado somente para pessoas hospitalizadas com quadro de pneumonia e que precisam de suporte de oxigênio, desde que não estejam em ventilação mecânica. A medicação ficou conhecida em 2020 por ser utilizada no tratamento do então presidente americano Donald Trump e custa US$ 3,1 mil.

SÃO PAULO, SP, 20.04.2021: A Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou nesta terça-feira (20) o uso emergencial de um medicamento contra a Covid-19. Trata-se de um coquetel que contem a combinação de casirivimabe e imdevimabe (Regn-CoV2), dois remédios experimentais desenvolvidos pela farmacêutica Roche. Nas imagens, logotipo e medicamento digitalizado em tela de fundo. (Foto: Kevin David/A7 Press/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 20.04.2021: A Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou nesta terça-feira (20) o uso emergencial de um medicamento contra a Covid-19. Trata-se de um coquetel que contem a combinação de casirivimabe e imdevimabe (Regn-CoV2), dois remédios experimentais desenvolvidos pela farmacêutica Roche. Nas imagens, logotipo e medicamento digitalizado em tela de fundo. (Foto: Kevin David/A7 Press/Folhapress) | Foto: Kevin David/7Press/Folhapress

O infectologista do HU vê alcance limitado em ambos os tratamentos. “Em relação ao Regn-COV2, só mostrou benefício em pacientes sem necessidade de oxigênio (mais leves), de maneira mais precoce e com alto risco para doença grave. Não teve benefício para outros grupos e não foi testado ‘in vivo’ para cepas p.1 (variante amazônica que já predomina no Paraná). Em relação ao Rendesivir, os estudos são controversos. Alguns mostram benefício e outros não. Os maiores benefícios parecem ser nos pacientes com necessidade de oxigênio (porém não intubados). Entretanto, a maior parte dos estudos não demonstrou diminuir a mortalidade, apenas diminuir o tempo de sintomas.”

Santos Neto, que também é professor de Medicina das Faculdades Pequeno Príncipe em Curitiba, destaca que o uso do Regn-COV2 visa “reduzir a replicação viral e, por consequência, diminuir os efeitos inflamatórios nas fases mais graves da doença”. Quanto ao Rendesivir, o médico diz que os estudos com a droga mostraram redução do número de dias internados, o que pode impactar tanto no desfecho clínico dos pacientes quanto na ocupação hospitalar (a redução de dias internados pode ajudar a diminuir a sobrecarga do sistema hospitalar).

Tedesco Júnior aponta um outro fator limitador dos tratamentos. “É uma droga bem cara e tem que ser feita por via endovenosa, ou seja, o benefício é pequeno para um custo elevado.” Ele não acredita que os medicamentos sejam oferecidos pelo SUS, tanto pelo custo, quanto pela disponibilidade baixa dos produtos, que precisam ser importados.

Santos Neto, por sua vez, tem uma visão mais otimista quanto à adoção do SUS para os novos tratamentos. Mesmo pontuando que pacientes particulares e de planos de saúde possam ser beneficiados com os novos medicamentos quando o Ministério da Saúde incorporar as medicações, o nefrologista exemplifica outros tratamentos já adotados pelo SUS e vetados por planos de saúde. “Há que se lembrar que muitos tratamentos para doenças graves que são disponibilizados pelo SUS possuem dificuldades para dispensação pelos planos de saúde (aqui destaco alguns tratamentos quimioterápicos e transplantes). Por se tratar de uma pandemia, é possível que o Ministério de Saúde adote uma postura mais pró-ativa para disponibilizar essas medicações para os pacientes atendidos pelo SUS.” Ele estima que no segundo semestre o uso dessas drogas possa ser feito em maior escala no País.

Mesmo discordando em alguns pontos sobre os novos tratamentos autorizados pela Anvisa, os dois médicos reforçam a necessidade dos cuidados básicos pela população para evitar o contágio pelo vírus e o recrudescimento da pandemia do novo coronavírus.

“A melhor forma ainda para (combater) a Covid-19 é a vacinação e o distanciamento social”, destaca Tedesco Júnior. Santos Neto lembra que a vacinação e as medicações “são ferramentas para o combate da pandemia, não panaceias que irão solucionar de maneira mágica a situação.” A saída da pandemia, reforça ele, passa pela “responsabilização individual de cada um pelo seu cuidado, além dos esforços de governos em todas as esferas para dar condições de acolher os doentes e evitar a progressão da pandemia”.

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