Cursos exigem investimento e preparo
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sexta-feira, 23 de julho de 2004
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Com a experiência de quem enfrenta no dia-a-dia as dificuldades do ensino superior, estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL) alertam que a carência financeira e a base de conhecimento precária oferecida pelo escola pública poderão ser obstáculos à manutenção daqueles que ingressarem por meio da reserva de cotas. Alunos consultados pela Folha apontam que, em determinados cursos, o custo de materiais é elevado e a complexidade de certas disciplinas exige preparação anterior à universidade.
O curso de medicina, por exemplo, é não apenas o mais concorrido da instituição mas também um dos mais caros. Os custos para o aluno vão de livros didáticos a instrumentos médicos. ''A gente gasta bastante com xerox, toda semana, mas acaba tendo também que comprar alguns livros. Muitos são títulos de autores estrangeiros e, por isso, são bem caros'', afirma a estudante do 4º ano Camile Cripa Vicentini, 22 anos, citando preços que variam entre R$ 80 e R$ 300. ''Viver só de empréstimos na biblioteca é difícil, porque alguns livros têm circulação restrita e outros nem são encontrados lá'', ressalta.
Já a lista de materiais ''quase obrigatórios'' do curso inclui, segundo a estudante, jaleco (de R$ 15 a R$ 20), estetoscópio (R$ 90 a R$ 330) e medidor de pressão (em média R$ 200). Para a inscrição em congressos de medicina, as taxas podem ultrapassar R$ 100. Embora admita que o curso é caro, Camile diz que os obstáculos não são intransponíveis para alunos de escolas públicas. ''Vai muito da dedicação aos estudos e força de vontade. Tem muito aluno que estudou em colégio particular empurrando o curso com a barriga'', ressalta, acrescentando ser contra as cotas ''porque segregam a população''.
Estudantes do curso de engenharia elétrica lançam dúvidas sobre a continuidade dos alunos egressos do ensino público na universidade. Segundo Rogério Eduardo Neves, 23, disciplinas como matemática e física exigem uma boa base do aluno já no ensino médio. ''Sem isso, dificilmente ele consegue se manter. Cerca de 85% da nossa turma estudou em colégio ou cursinho particular. Mesmo assim, o índice de reprovação chega a 50% em alguns anos'', indica. ''Se liberar as vagas sem oferecer uma base de ensino, os estudantes vão chegar aqui e em algum momento vão travar'', completa Denis Fecarotta, 22.
Outra ressalva feita é sobre a necessidade de o aluno abrir mão de ter um emprego enquanto estuda. A estudante Marcela Penco, 27, conta que alguns já tentaram e não conseguiram. ''Trabalhar é impossível, não dá tempo. O curso é em período integral e às vezes até provas são marcadas à noite'', destaca. Os três alunos são do 4º ano.


