O Ministério da Educação (MEC) prepara uma reforma radical no currículo dos cursos de medicina. A idéia é dar ênfase à formação do clínico-geral, em detrimento das disciplinas direcionadas às especialidades médicas. Outra preocupação é assegurar a participação do estudante em atividades práticas, garantindo o contato direto com pacientes desde o primeiro ano de faculdade.
‘‘Os médicos recém-formados não sabem mais nada’’, afirma a presidente da Associação Brasileira de Ensino Médico (Abem), Regina Stella. Para ela, o atual currículo erra ao aprofundar o estudo das especialidades, deixando de lado a formação do clínico-geral - que atende à maior parte das doenças da população. ‘‘Hoje o aluno vê como fazer um transplante de rim antes de aprender a curar uma infecção urinária.’’
O resultado, segundo ela, é que os formados recebem o diploma e, mesmo após seis anos de estudo, não se sentem em condições de atuar profissionalmente. No máximo saem da faculdade em condições de disputar uma vaga num curso de pós-graduação. ‘‘O atual currículo médico não dá tempo de formar um especialista e não abre espaço para a formação do clínico-geral’’, critica Regina, para quem a especialização médica deveria ser feita nos cursos de mestrado e doutorado.
Outra inovação defendida por ela é evitar que o atendimento prestado pelos estudantes ocorra apenas nos hospitais universitários. O objetivo é colocar os alunos em postos de saúde, onde poderão defrontar-se com um quadro mais variado de pacientes. ‘‘Hoje perdemos a visão integral do paciente’’, observa ela, que participa da comissão de especialistas de ensino médico do MEC e é professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - onde os estudantes atuam num posto de saúde na Vila Mariana.
No Exame Nacional de Cursos (Provão) do ano passado, a nota média dos alunos de medicina foi 4,9 - ainda assim a mais alta das 18 carreiras avaliadas -, enquanto estudantes do sexto ano submetidos a teste da Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do Ensino Médico (Cinaem), também em 1999, alcançaram a média de 5,2.
‘‘A avaliação confirma a necessidade de reorganização dos currículos’’, diz o diretor de Políticas do Ensino Superior do MEC, Luiz Curi. Isso deverá ser feito por meio de diretrizes curriculares nacionais, que definirão em linhas gerais os objetivos e a organização dos cursos superiores no País, incluindo os de medicina. No ano passado, o ministério enviou ao Conselho Nacional de Educação (CNE) um pacote com propostas de diretrizes para 38 áreas do conhecimento, resultado de quase dois anos de discussões com as universidades, segundo Curi. As propostas estão sob análise do CNE.
Diante da complexidade da alteração curricular e de divergências entre professores e dirigentes de escolas médicas quanto ao teor das diretrizes, o MEC incentivou uma nova discussão na área médica. O mesmo está ocorrendo na biologia e nas engenharias. Assim, no mês que vem, representantes da Abem, da Cinaem e da Rede Unida - outra entidade que congrega escolas médicas - vão redigir a proposta final de diretrizes para os cursos de medicina. O texto aprovado pelas entidades será então enviado ao CNE.
Curi destaca que o currículo é fundamental para permitir o bom aproveitamento das instalações e dos professores numa instituição de ensino. Afinal são as disciplinas que interligam os diversos agentes envolvidos no processo educativo. Dos 79 cursos de medicina submetidos este ano à Avaliação das Condições de Oferta do ministério, 23 receberam conceitos insuficientes (4) ou irregulares (19) no item organização didático-pedagógica. ‘‘Estamos preocupados com a qualidade do aluno’’, conclui Curi.

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