Curitiba- No primeiro dia de rodízio no abastecimento de água, que começou ontem em Curitiba, a população mostrou que sabe se virar e está disposta a improvisar para reduzir o consumo. O racionamento começou às 14 horas, atingindo cerca de 210 mil habitantes de 20 bairros da Capital, que ficarão com os registros fechados até as 16 horas de hoje. Elas fazem parte do primeiro dos sete grupos de bairros e municípios da Região Metropolitana, que serão atingidos pelo rodízio.
Para os moradores que não têm caixa d'água, uma população estimada em 500 mil pessoas, valeu tudo para garantir um pouco de água nas 26 horas de racionamento: encher tanques, máquina de lavar roupa, latões, galões de água, garrafas, panelas e vasilhas. ''Meu marido trabalha em um empresa que entrega água e já trouxe dois galões vazios. Enchi tudo. A água dos galões vai servir para a cozinha, e coloquei água na máquina para lavar louça'', disse Jaciara Aparecida Bueno, de 21 anos, que mora com o marido, três filhos e uma irmã em um barraco na favela do Parolin.
Na casa em frente, sua vizinha Doralícia Biano, de 61, que trabalha como catadora de lixo para reciclagem, mora sozinha, mas justamente, ontem, quando não teria água, estava com uma filha e dois netos em casa. ''O negócio é esquentar a água no fogão a lenha e tomar banho com uma latinha'', contou. Bem-humorada, disse que já vem sentindo falta d'água várias vezes nos últimos tempos. ''A gente vai quebrando o galho, com latão de água, tomando banho de bacia.''
Os moradores que têm caixa d'água em casa tiveram poucos problemas. A dona de casa Itamira Waldrigues Boiko armazenou água que vem da rua para os cachorros e tomou banho antes das 14 horas, para economizar a água da caixa. ''Não estoquei, porque a água da caixa será suficiente'', disse Itamira, que já mantém o hábito de racionar. ''A água da máquina de lavar serve para lavar a calçada, e a louça é lavada de uma vez só, com água quente dentro de uma bacia.''
Seu vizinho, o engenheiro eletricista Roberto Tosi tem poço artesiano em casa, mas a água é pouco usada. Quando a família veio para o bairro, em 1965 a água era limpa, mas hoje está contaminada e só serve mesmo para lavar a calçada. Com quatro moradores na casa, eles também não se preocuparam em armazenar água. ''É só um dia, economizando dá.''
Preocupação - No bairro Rebouças, também incluído no rodízio ontem, a empregada doméstica Rosa Mariano, reaproveitou a água da lavagem de roupa para passar pano molhado na calçada. Sem problemas na casa dos patrões, ela estava preocupada com a situação que encontraria em casa. Ela e o marido moram no Sítio Cercado, a casa não tem reservatório e ela não estocou água. ''Vou ter que pegar a água da geladeira, que era para tomar, para fazer a comida.''
Quem usa muita água no trabalho, teve que mudar os hábitos. Logo que soube do rodízio, Jair Estorilio, dono de restaurante que serve cerca de 300 refeições no almoço comprou mais uma caixa d'água. Mesmo asim, ele reuniu os funcionários e combinou algumas regras, como deixar a louça de molho primeiro, lavá-la de uma vez só e, o que sobra, é usado para a lavagem da calçada.
No posto de gasolina da vizinhança, a alternativa foi desativar o serviço de lavagem de carro. ''Já paramos desde as 10 horas de ontem (anteontem) e vai ficar assim durante todo o racionamento'', disse o frentista Gilsemar Cardoso. Diariamente, segundo ele, o posto lavava cerca de 30 a 40 veículos, no valor de R$ 12 para lavagem completa. Agora, o local do ''lavacar'' virou espaço para estacionamento.
Hoje, também a partir das 14 horas, o racionamento começa para o segundo grupo. São cerca de 245 mil pessoas de 17 bairros da Capital. Assim, cada grupo ficará sem água sempre no mesmo dia da semana. Cada grupo terá os registros fechados por 26 horas. Nas partes altas da cidade e de ponta das redes de água, o reabastecimento vai demorar mais, mas o retorno da água deve ocorrer no máximo, segundo a Sanepar, até as 22 horas.
Serviço
- Quem ainda não sabe a que grupo do rodízio pertence deve ter em mãos o número da matrícula (na conta de água) e buscar a informação nos escritórios da Sanepar, pelo site www.sanepar.com.br ou pelo telefone 115.

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