Curitiba perde seus bares tradicionais
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de julho de 1997
Guilherme Pupo 
Curitiba
Albari RosaNOSSA PRAIARestaurante Lá no Pasquale, fechado no início do mês, marcou época e ficou conhecido como a praia de CuritibaO Pasquale é a nossa praia. Referência de gerações, garantia de boa conversa, sobretudo nas manhãs de sábado. Não imagino Curitiba sem o Passeio, nosso primeiro parque, nem o Passeio sem o Pasquale, nosso anfitrião de sempre. Boas serão as cidades que se reconciliarem com a natureza, capazes de abrigar Passeios e Pasquales, fazedores do encontro e da boa conversa.
As palavras, do governador Jaime Lerner, foram escritas quando ele era prefeito de Curitiba e publicadas há cinco anos. Hoje já não fazem mais sentido. O Lá no Pasquale, bar e restaurante aberto em 1957 no Passeio Público, encerrou as atividades no início do mês, após quatro décadas da famosa feijoada sabatina, dos petiscos e das rodas de chope nas mesas ao ar livre.
A Urbs, empresa que administra o Passeio Público, ganhou na Justiça a reintegração de posse do imóvel pelo não pagamento das mensalidades de permissão de uso do restaurante. O futuro do local ainda não está definido, mas deverá fazer parte do programa municipal que prevê a revitalização do Passeio.
O episódio do Pasquale não é único e revela a perda do charme e o desaparecimento de tradicionais pontos de encontro da cidade. O bar e confeitaria Cometa, um dos pioneiros na cidade, deu lugar a uma loja de sapatos no Calçadão da Rua XV.
Guaiacá, Paraná, Americano, Trocadero, Bar do Luís. Os nomes estão guardados na memória da boemia curitibana. Estudantes, políticos, jornalistas e gente de todos os tipos passavam a noite debatendo assuntos existenciais ou jogando conversa fora.
Os motivos para a extinção do glamour nos bares são vários, segundo depoimento dos próprios frequentadores - da crise financeira do comércio ao aumento da concorrência, das dificuldades com o trânsito até a velocidade dos tempos modernos. Os próprios clientes também foram dando lugar às novas gerações, de hábitos distintos.
A cidade perdeu a graça, mudou de escala e ficou incompatível com esses famosos pontos de encontro. Houve compensações, com a abertura de lugares mais sofisticados, mas o charme acabou, avalia o jornalista Luiz Geraldo Mazza, que relembra noitadas homéricas no Bar do Luís, ponto de encontro de jornalistas durante vários anos (na Rua José Loureiro), ou no Guaiacá, ao lado do Palácio Avenida, na Rua XV.
Para a arquiteta Ariadne Manzi, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), a chegada dos shopping centers e o crescimento da cidade também contribuíram para a mudança no perfil dos pontos de encontro. Há alguns anos, chegar no Centro da cidade era mais fácil e mais simples. Hoje é difícil encontrar um lugar para estacionar.


