SENOBA, Turquia (AE-AP) - Tayyar Babat coloca que seu rifle automático de lado, dá uma tragada num cigarro enrolado à mão e fala, de maneira preocupada, sobre a possibilidade de chegada da paz ao sudeste da Turquia e da perda de seu emprego, na luta com seus companheiros curdos.
"A única coisa que eu sei fazer é lutar", diz Babat, usando as tradicionais calças largas dos curdos e uma elaborada faixa xadrez de tricô na cintura com um turbante da mesma estampa na cabeça. "Eu não sei fazer outra coisa."
Babat, e os cerca de 66 mil outros curdos, é parte de uma guarda numa vila pró-Turquia. Durante 15 anos de luta contra rebeldes, a milícia tornou-se a maior e uma das poucas fontes de renda e emprego no sudeste da Turquia. Agora, com a maioria dos rebeldes derrotados, o governo turco está esforçando-se para reduzir a guarda sem mandar para as ruas do sudeste do país, onde o desemprego em algumas áreas chega a 50%, dezenas de milhares de combatentes frustrados e bem treinados.
Muitos turcos questionam a lealdade dos membros da guarda, muitos dos quais, acredita-se, tenham sido recrutados com o uso da força ou lutem apenas pelos US$ 130 por mês, uma fortuna nesta região pobre. "É muito arriscado jogar os soldados as suas famílias no desemprego e não esperar o crescimento da criminalidade e mesmo que eles juntem-se ao PKK", o rebelde Partido dos Trabalhadores do Curdistão, diz Michael Radu, do Instituto de Pesquisas de Política Internacional da Filadélfia. "Isso deve ser feito de uma forma muito cuidadosa."
O governador Huseyin Baskaya da província de Sirnak diz que quando "as noites forem tão seguras quanto os dias aqui, o governo deverá encontrar outras formas de empregá-los como guardas de segurança e no setor de limpeza".
Desde 1984, o exército já demitiu 20 mil guardas suspeitos de favorecer rebeldes curdos lutando por autonomia no sudeste. Muitos rebeldes e guardas são das mesmas vilas ou clãs. Centenas de guardas também enfrentam acusações que incluem tráfico de drogas e armas. Diplomatas dizem que há evidências de que os militares turcos fazem vista grossa ao tráfico de drogas feito pelos guardas leais, alguns dos quais lucraram imensamente com o contrabando.
A maioria dos guardas é de vilas pobres e muitos, de acordo com registros, tornaram-se milicianos depois que o exército ameaçou queimar as vilas que não formassem unidades com guardas. Outros foram alistados por poderosos líderes políticos de clãs aliados ao estado. Algumas vilas aparentemente prometeram lealdade à Turquia como parte dos feudos locais com vilas pró-PKK. "Milhares de pessoas foram forçadas a apoiá-los", diz Hasim Hasimi, vereador de Diyarbakir, a maior cidade do sudeste. "Vilas ou aqueles que não aceitaram ser guardas da vila foram retirados" pelo exército.
Mas os aldeões que apoiaram os militares eram frequentemente atacados pelos rebeldes. Quase 1.300 guardas de de vila morreram lutando. Em alguns casos, o PKK atacou as vilas que tinham unidades de guardas apenas para matar os guardas e suas famílias.
Hazim Babat, um homem troncudo e musculoso com um espesso bigode, lembra-se com amargura do dia de janeiro de 1986 quando os rebeldes queimaram sua vila porque ela apoiava o governo. "Alguns dos guerrilheiros do PKK cercaram a casa", diz ele. "Eles feriram seis de nós e queimaram nossa casa e toda a vila." Babat lutou enquanto sua mulher, Esmer, carregava os pentes de seu rifle automático de fabricação russa. Ele diz que o governo não deve apenas demitir os guardas. "Não sobrou nada, nem os animais nem as terras para agricultura", diz Babat, chefe de uma unidade de guarda de vila de 2.500 homens e um dos líderes da tribo Guyan. "Antes, eles devem criar empregos para nós."
A casa de Babat na vila de Senoba é decorada com cartas emolduradas de generais turcos elogiando-o por seu "patriotismo e heroísmo". Mas, para os guerrilheiros, dentre eles alguns membros de sua tribo, ele é um traidor. Sob sua jaqueta esportiva há uma pistola Beretta e três pentes de reserva, cheios de balas. "Isso me deixa tenso", diz Babat. "Eu não gosto de armas, mas ela está sempre comigo."
Do lado de fora de sua casa, homens caminham por ruas estreitas, que separam pequenas casas de tijolos e tetos retos, com rifles automáticos à mão e prontos para ação.
Apesar do anúncio do PKK, feito em fevereiro, de que estaria terminando sua luta armada e que agora irá lutar pacificamente pelos direitos culturais dos curdos, tais como o direito de ensinar e fazer transmissões de rádio na língua deles, confrontos esporádicos continuam a acontecer nas montanhas, não muito longe da vila.
"Tem havido muitas lágrimas e sofrimento", diz Babat, que perdeu 19 membros da sua família em vários confrontos ao longo dos anos.

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