DOGUBAYAZIT, fronteira Turquia-Irã (AE) - A Arca de Noé, a olho nu, não está no topo do Monte Ararat. Escalar o Ararat para comprovar in loco é proibido: além de deslizamentos de pedra e gelo, bandidos e cães ferozes, seria preciso enfrentar os guerrilheiros mal barbeados do PKK - o partido separatista curdo de Abdullah Ocalan. De superestrela da Bíblia, os 5.137 metros do Ararat, eternamente nevado, hoje foram reduzidos a velar sobre uma caótica Arca de Noé do Terceiro Mundo no Terceiro Milênio. Dogubayazit - em pleno Curdistão, um país, como se sabe
virtual - saiu direto da Idade da Pedra para a Idade do Ericsson, e sem paradas intermediárias.
Antes dos anos 80, nesta paisagem lunar, só havia poeira.
Até que interveio o anjo da História: a economia do Irã entrou em pane - por causa de Khomeini e, principalmente, por causa da interminável guerra com o Iraque.
Dogubayazit virou um centro de contrabando de uísque, cigarros e muamba tecnológica. Os iranianos entraram com drogas. E os curdos tomaram conta do comércio na fronteira. As mulheres, rigidamente veladas - muitas de chador - podem, no entanto, comprar várias marcas de batedeira, esmalte para unhas, ou aparelhos para aperfeiçoar seu abdome. Frotas de empoeirados Mercedes classe S disputam as ruas bombardeadas com carroças e rebanhos de ovelhas. Em plena rua principal há uma cratera tão avantajada quanto a provocada por um meteoro que veio visitar o leste da Anatólia em 1920 e abriu um buraco de 60 por 35 metros, hoje convertido em atração para turistas. Os únicos turistas da cidade são dois mochileiros japoneses.
Todo mundo tem um celular, mas os telefones locais não funcionam. Os hotéis não têm ar-condicionado ou água quente, mas têm uma Samsung com controle remoto. O menu é quibebe ou quibebe. Fugir deste apocalypse now em um Meteor para Istambul - o ônibus, não a cratera - demora no mínimo dois dias.
Nesta paisagem urbana pós-terremoto - sem terremoto -, os únicos turcos à vista são soldados, polícia e parcos funcionários do governo. O Estado turco exibe seu poderio por meio de uma moderníssima autoestrada com vista panorâmica do Ararat que liga Dogubayazit à fronteira turco-iraniana. Não existe, de fato, fronteira. Todo mundo dos dois lados, Turquia e Irã, é curdo.
Este é um Estado policial - ou zona de guerra. Em uma enorme guarnição também com vista para o Ararat, soldados executam manobras em trincheiras e operam tanques e lança-foguetes. Há check points mesmo para se visitar um palácio fora da cidade. São inevitáveis os paralelos com o lado indiano da Caxemira e a opressão dos uigures em Xinjiang, o faroeste chinês.
As extensões vulcânicas em torno de Dogubayazit também incitam a reflexões sobre o futuro da nação-Estado. No atual darwinismo político, é possível que Estados inclinados a acomodar os curdos tenham uma vida mais fácil do que Estados belicosos. O sistema imposto pelos vencedores da 1.ª Guerra consistia em dividir a terra em categorias. A História demontra seu fracasso - da Caxemira à Palestina.
O século 21 será de uma tremenda ambiguidade política - com o enfraquecimento progressivo de Estados e governos centrais.
Ishak Pasa Saray - um complexo fortaleza-palácio-mesquita - é onde se espelha todo o orgulho curdo: um século de construção, do 17 ao 18, e finalizado por um chefe tribal curdo. Sua arquitetura é um mix vertiginoso de arcos seljuk, influências otomanas e georgianas, um domo persa e filigranas armênias. As portas douradas foram "removidas" pelos russos e hoje estão no Hermitage.
Mesmo após extensa restauração, Ishak Pasa Saray é a definitiva imagem do fascínio da Rota da Seda em pleno deserto dos tártaros. O mais extraordinário é que se trata do produto de uma fusão - e não um choque - de culturas. Da mesma maneira que Rumi, o tolerante mestre sufi de Konya, poeta persa adotado pelos seljuks no século 13, fundiu tradições persas e turcas.
Ao lado da Ishak Pasa Saray, prolixas famílias do leste da Anatólia passam o dia acampando. Esquartejam uma ovelha e fazem um longo banquete. Um assistente-cirurgião em Ancara, curdo, explica: "Aqui é um local sagrado, túmulo do poeta curdo Ahmedi Hani."
Em uma barraquinha na fronteira da Turquia com o Irã, os motoristas de dolmus - as lotações turcas - são uma verdadeira agência de notícias.
Nenhum deles é um pesh merga - os guerrilheiros curdos, "os que caminham antes da morte". Mas todos são PKK. Ocalan é "no problem". Se for enforcado, haverá outros líderes para substituí-lo.
O governo turco é fascista. Insiste que o PKK só matou policiais e militares - e os militares turcos invadem aldeias e fuzilam mulheres e crianças. Sua força está nos números: "Se um turco faz um filho, fazemos dez."
Não por acaso insistem que há 24 milhões de curdos - cifra altamente disputável - em uma população turca de aproximadamente 65 milhões.
Um dos motoristas esperando Godot - ou seja, clientes atravessando a pé do Irã - propõe uma visita a um posto aduaneiro mais remoto. O policial encarregado, para quebrar a monotonia abissal, e depois de examinar o passaporte, promove uma tour no posto - onde quem não tem fundos para pagar taxas é convidado a descarregar uma parte da mercadoria. Exatamente ao lado, a prova gráfica de que não existe fronteira: a cerca de arame farpado está aos pedaços. Nada mais simples do que entrar na República Islâmica do Irã.
Esse ponto crucial liga nada menos que dois caldeirões incandescentes: os Bálcãs e o Cáucaso. Aqui, no Curdistão, era a falha geológica entre armênios e turcos na virada do século 20. E aqui é a falha geológica entre as civilizações turca e persa-iraniana na virada do século 21.
Por aqui também passa a Rota da Seda do século 21: do lado iraniano, uma fila quilométrica de jamantas lotadas de diesel e gás do Turcomenistão espera passar a aduana.
Ínibus Mercedes pré-Khomeini impecavelmente manicurados trazem peregrinos que vêm de Teerã e Shiraz com destino à Síria. Cambistas curdos trocam notas verdes de 10 mil rials com o retrato de Khomeini pelos milhões de liras turcas equivalentes.
As últimas de Teerã são unânimes, de acordo com os peregrinos: todos estão fartos e só esperam o regime dos mulás definhar de vez para o Irã voltar ao capitalismo. Mais um caso histórico de retorno do reprimido. ESTADO VIRTUAL - O Curdistão não é um país. Curdos detestam fronteiras. Divididos por tribos, lutam contra o mundo e entre eles. Um Estado curdo seria 100% um certificado de anarquia. Mas o Curdistão poderia ser um país. Quando o império otomano se desintegrou no fim da 1.ª Guerra, os aliados estipularam a criação do Curdistão no Tratado de Svres, em 1920. Mas mudaram de idéia em 1923 - rendendo-se à importância estratégica da Turquia, um bastião anticomunista contra a expansão da Rússia.
No entanto, o Tratado de Lausanne, de 1923, previa o reconhecimento do Curdistão e seus direitos básicos. Turquia e Iraque o ignoram até hoje.
O Curdistão passou a fazer parte do império seljuk - e depois otomano - por volta do século 11. Era um feudalismo unindo um mix de povos de montanha.
O leste da Anatólia o demonstra: o Curdistão é pobre, tecnologicamente inexistente, no fim do mundo e mantido no subdesenvolvimento de propósito pela Turquia.
Não há estimativas precisas, além de uma monstruosa taxa de natalidade. Mas há no mínimo 15 milhões e possivelmente 20 milhões de curdos na Turquia. Pelo menos um terço dos membros do Parlamento em Ancara tem origens curdas. Há cerca de 7 milhões de curdos no Irã, mais de 1,5 milhão na Síria e mais de 4 milhões no Iraque, mesmo atormentados por Saddam Hussein. Há curdos no Cáucaso e mais de 1 milhão na Rússia.
A possibilidade de nascimento de um Curdistão englobando várias partes de Turquia, Irã, Síria e Iraque é mais remota do que a descoberta da Arca de Noé. Em tese, após a condenação de Ocalan, o PKK vai aderir a vias, digamos, diplomáticas. Será um alívio para o governo turco: estima-se em Ancara que esta guerra custou no mínimo U$ 180 bilhões e 30 mil mortos.
O balanço é trágico: os militares turcos e o PKK devastaram mais de 2 mil aldeias no leste da Anatólia. O PKK é como as gangues dos guetos americanos: controla o campo à noite e Ancara controla as cidades. Qualquer veículo trafegando à noite nas estradas do Curdistão é minuciosamente inspecionado. Uma das principais bases do PKK é em Zaleh, perto da fronteira Turquia-Irã. Os guerrilheiros de Ocalan nunca ouviram falar de Marx - mas sua agenda permanece, em tese, socialista.
Ainda restam no mínimo 200 mil militares e policiais turcos no leste da Anatólia. É importante, no entanto, notar que para os organizadíssimos militares turcos a influência do Islã é mais perigosa para o Estado do que o separatismo curdo. Mas a "solução" militar para o problema curdo está exangue.
Com os custos da reconstrução pós-terremoto estimados em US$ 10 bilhões e uma atmosfera generalizada de boa vontade na comunidade internacional, aumentaram as chances da Turquia aceder à União Européia. Uma das razões-chave do veto é justamente direitos humanos: ou seja, uma percepção em inúmeros países influentes na Europa de um genocídio perpetrado contra os curdos. De seu lado, a imprensa turca passou anos dando ampla publicidade a atrocidades cometidas pelos curdos contra mulheres
crianças, professores e anciãos. Será preciso mais do que um terremoto para se chegar a uma solução política do problema curdo.

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