Curdos desocupam embaixada e ministros gregos renunciam
Ancara, 18 (AE-REUTERS) - Manifestantes curdos puseram fim hoje (18) à ocupação da embaixada grega em Londres, enquanto ministros do governo da Grécia eram forçados a renunciar por causa da captura pela Turquia, no Quênia, do líder rebelde curdo Abdullah Ocalan.
Mas a Turquia desprezou a fúria curda e atacou pelo segundo dia seguido guerrilhas separatistas curdas no norte do Iraque, uma ação que provocou uma exigência de Bagdá de que a Turquia retire imediatamente suas tropas do território iraquiano.
Manifestantes curdos ocuparam mais de 20 missões gregas e quenianas em todo o mundo depois que forças especiais turcas levaram Ocalan, na segunda-feira, para a Turquia de nairóbi, onde ele havia recebido proteção diplomática da Grécia por 12 dias.
A maior parte das ocupações terminaram na noite de quarta-feira, apesar de a fúria curda ter explodido numa segunda noite de bombas incendiárias contra alvos turcos em toda a Alemanha e a invasão da sede regional das Nações Unidas em Viena hoje.
Em Londres, mais de 70 curdos puseram fim pacificamente a três dias de ocupação da embaixada grega. Eles haviam invadido a missão na terça-feira, tomando um funcionário como refém e ameaçando imolarem-se caso a polícia interviesse.
Um porta-voz do governo grego disse que os ministros renunciaram em meio a duras críticas sobre o abrigo dado a Ocalan em Nairóbi e sua subsequente captura pela Turquia - um ato visto na Grécia como uma humilhação nas mãos do arqui-rival.
"O primeiro-ministro pediu a renúncia do ministro do Exterior Theodoros Pangalos, do ministro da Ordem Pública Philipos Petsalnikos e do ministro do Interior Alekos Papadopoulos, que foram apresentadas", disse Dimitris Reppas.
A Grécia admitiu na terça-feira que o homem mais procurado pela Turquia tinha desembarcado num aeroporto grego em seu caminho para o Quênia.
Vários grupos curdos pediram à comunidade internacional para pressionarem por um julgamento justo para Ocalan e para planejar uma conferência de paz visando resolver o conflito que tem jogado os separatistas curdos contra Ancara por 14 anos.
Ativistas curdos puseram fim a quatro horas de ocupação da sede da ONU na capital austríaca depois de apresentarem uma exigência de que as Nações Unidas assegurem a segurança de Ocalan.
Cerca de 200 manifestantes curdos marcharam em silêncio pelas ruas de Berlim a fim de lembrar os três curdos mortos por guardas de segurança na quarta-feira, quando tentavam invadir o consulado de Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que os guardas atiraram em defesa própria.
Temia-se mais violência em Berlim depois que autoridades da cidade proibiram uma concentração planejada antes da marcha. Cerca de 500 mil curdos e mais de dois milhões de turcos vivem na Alemanha.
O primeiro-ministro da Turquia, Bulent Ecevit, tem prometido um julgamento justo para Ocalan de acusações de traição por sua parte no levante do separatista Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que já custou a vida de mais de 29 mil pessoas.
Jornais turcos divulgaram que Ocalan, de 51 anos, sendo interrogado na ilha-prisão de Imrali, no Mar de Mármara, deve aparecer num tribunal para uma audiência preliminar nos próximos 12 dias.
"O interrogatório será cuidadoso e o julgamento será rápido", escreveu o diário Milliyet.
Ocalan já estava sendo julgado a revelia por traição em três casos separados. Os jornais especularam que ele deve enfrentar agora um único julgamento na ilha de segurança máxima, mas acrescentaram que ele pode não começar por vários meses.
Ocalan, amplamente odiado pelos turcos, possivelmente será sentenciado à morte caso seja considerado culpado, apesar de a Turquia não ter executado ninguém desde 1984.
O Ministério do Exterior turco anunciou hoje que não irá tolerar qualquer interferência estrangeira no julgamento.
Oficiais de segurança da Turquia disseram que tropas entraram mais de 15 km no norte do Iraque para aplicar um golpe às guerrilhas curdas, que já estão desmoralizadas pela captura do líder rebelde.
Helicópteros Cobra dispararam foguetes contra alvos rebeldes nas montanhas de Metina, com cerca de 4.000 soldados ajudados por 1.000 milicianos curdos pró-governo tomando parte na ofensiva, afirmaram.
"A operação irá continuar até que seus objetivos sejam atingidos. Os terroristas estão em estado de pânico e não sabem o que fazer", disse um oficial de segurança.
O Ministério do Exterior iraquiano afirmou num comunicado que a incursão turca viola a carta das Nações Unidas e princípios do direito internacional.
O comunicado anuncia que o Iraque rejeita pretextos da Turquia. "O Iraque considera que o argumento de perseguir elementos rebeldes não dá o direito de violar a soberania terrestre e aérea iraquiana".
Grupos de direitos humanos na Turquia denunciaram que a polícia deteve mais de 350 seguidores do principal partido legal curdo, o Partido da Democracia Popular, que defende uma solução pacífica para o conflito curdo.
A principal advogada de Ocalan, Britta Boehler, disse hoje que a CIA americana esteve envolvida em sua captura. Ela lidera uma equipe de três advogados que foram impedidos pelas autoridades no aeroporto de Istambul de entrar na Turquia.
A Corte Européia dos Direitos Humanos em Estrasburgo anunciou que Ocalan apresentou uma queixa de que a Turquia violou seus direitos de ter um julgamento justo e seu direito de ser protegido de tortura.





