Paris, 03 (AE) - Enquanto a diplomacia parecia apostar na guerra, a Europa já sonhava com os tempos depois de Kosovo. A despeito de sua palidez, essa guerra terá pelo menos três efeitos úteis: - Por um lado, demonstrará que a Europa agiu a reboque dos Estados Unidos. Letárgicas, incertas, submissas, inertes, as potências do Velho Continente nada mais foram que um reflexo da vontade americana e da Otan. - Por outro lado, a Europa conscientizou-se de que não poderia existir como pretende - por exemplo pela moeda única, o euro - a não ser que estabeleça uma estrutura militar unificada, que lhe permita, no momento necessário, não prescindir da Otan, mas, pelo menos, dar-lhe uma contribuição própria, séria e livre. - Por fim - e esta é uma das lições espetaculares de Kosovo -, a inferioridade militar da Europa quanto aos Estados Unidos é quase indecente. Pelo que, se é indubitável o desejo de construir uma defesa européia, todos se conscientizaram de que essa força européia não poderá ser criada enfileirando, uns após outros, os Exércitos frouxos e obsoletos dos 15 países da União Européia.
Três países já estão persuadidos disso: a França (há muito tempo), a Inglaterra (mais recentemente) e a Alemanha (de alguns dias para cá). A reunião de cúpula de Colônia, em realização hoje e amanhã, será em parte consagrada à questão militar nos dias "pós-Kosovo". Os três países desejosos de promover uma Europa defensiva tentarão converter os outros europeus, mais reticentes. Uma vez que esses três países favoráveis à Europa defensiva são as potências maiores, seu ponto de vista deverá impor-se pouco a pouco.
Uma palavra quanto ao atraso militar da Europa, baseada nas cifras do Centro da Política de Segurança de Genebra.
Os EUA gastam US$ 265 bilhões na defesa. A União Européia, US$ 165 bilhões. Com uma circunstância agravante: uma vez que os efetivos militares são maiores na Europa (1,9 milhão de homens) do que nos Estados Unidos (1,4 milhão), a parte orçamentária reservada ao equipamento e à modernização reduz-se ainda mais na Europa em relação à América.
Os recursos consagrados pela Europa ao treinamento não ultrapassam em 5% os recursos americanos. Para as forças de "projeção" (ataque) a Europa emprega 30% menos do que o orçamento americano. A indústria militar americana tem 750 fábricas, a européia, apenas 250.
Seria necessário estender ainda mais essa numeração, que estabelece a inferioridade catastrófica da Europa? O espetáculo da guerra de Kosovo já nos havia alertado de que os americanos forneceram três quartos dos aviões e quatro quintos das bombas e mísseis. De outra parte, temos porque temer um perigo ainda maior: a ineficiência da pesquisa militar na Europa levou a que o Velho Continente fosse inteiramente privado dos dispositivos mais modernos, mais requintados, nos setores da aviação, dos mísseis, da defesa antimísseis, etc. Pelo que a cada ano se criou um rombo cada vez maior, que muito rapidamente poderá tornar-se impossível de ser anulado.
Conclusão: é certo criticar a hegemonia dos EUA e da Otan quanto à guerra de Kosovo. É igualmente certo suspirar por uma defesa comum européia. Mas o primeiro dever agora não seria corrigir o atraso, criando os recursos necessários a sua superação?

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