CULTURA MACHISTA - Estupro é naturalizado no ambiente universitário
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sábado, 04 de junho de 2016
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
Na casa de um amigo, na festa dos colegas de faculdade, nos corredores da universidade, no ônibus, na "balada". Relatos de estudantes universitárias de Londrina e Curitiba denunciam que o risco de estupro não é restrito apenas a "ambientes perigosos", como insistem em defender as pessoas que ainda justificam o estupro da adolescente carioca por 33 homens pelo fato dela frequentar bailes funks. Na semana passada, em repúdio à "cultura do estupro" e em solidariedade à adolescente, estudantes e professoras da Universidade Estadual de Londrina (UEL) fizeram uma intervenção cênica pelos corredores do Centro de Letras de Ciências Humanas (CLCH) da instituição.
Não faltam motivos para protestar. Em março deste ano, o bacharel em Direito Lucas Ferreira Ramalho, de 25 anos, e o administrador de empresas Pedro Henrique de Oliveira, de 23, foram presos após terem sido condenados em duas instâncias por estupro de vulnerável. Conforme apurou a reportagem do portal de notícias Bonde à época, no dia 24 de maio de 2012, Ramalho teria colocado uma substância sedativa na bebida de uma estudante de Direito. Mais tarde, ele a teria levado, com a ajuda do então estudante de Administração da UEL Pedro Henrique de Oliveira, a um motel da cidade - onde o estupro se consumou. Na manhã seguinte, a garota foi deixada em casa pela dupla.
Andressa Prato é estudante de Direito e faz parte do coletivo Fruta Cor, voltado à defesa da diversidade na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Helen Oliveira integra o coletivo feminista Mietta Santiago, que reúne estudantes de Direito da mesma universidade. Ambas afirmam que a naturalização da cultura do estupro na UEL é tão marcante que as alunas sentiram necessidade de se organizar.
"Faz parte da realidade da universidade", afirmam as duas, destacando que o contexto mais comum são as festas, onde o consumo de bebidas alcoólicas deixa as mulheres mais vulneráveis aos olhos dos abusadores. "Não é à toa que os cartazes das festas anunciam que mulher não paga e ainda ganha drinks. É como se fôssemos uma isca, um produto a ser oferecido", denunciam.
Até pouco tempo, uma das práticas das festas de integração entre calouros e veteranos de Direito era o "leilão" das calouras através da prática do "miss moedinha", que consistia em oferecer as estudantes em cima de uma mesa, onde elas se abaixavam para pegar uma moeda. "Fizemos uma carta de repúdio denunciando a humilhação e conseguimos banir essa prática. Foi neste contexto que surgiu o coletivo de Direito", contam.
Atualmente, entre outras ações, o grupo recebe e acolhe as calouras, orientando sobre medidas de proteção para evitar o assédio. "A principal orientação é que precisamos cuidar umas das outras, ir para as festas com as amigas e ficarmos sempre atentas", diz Helen. A conclusão sobre essa "medida de proteção" veio após rodas de conversa apenas entre mulheres durante a semana cultural do curso de Direito. Nestas ocasiões, muitas estudantes acabaram relatando estupros que jamais foram denunciados à polícia.
Apesar da violência, elas constataram que as estudantes não denunciam pelo medo de serem julgadas, ficarem "faladas" e até mesmo porque a reação inicial das outras pessoas é não acreditar no relato. Por isso, os coletivos feministas dos cursos de Direito e Psicologia estão tentando se organizar para formar uma rede de apoio para acolhimento das vítimas e denúncia dos casos.
As estudantes destacam que os estupradores muitas vezes são conhecidos das vítimas. "É um colega, alguém que está na mesma festa, um amigo do namorado. Faz parte da realidade da universitária ser estuprada e continuar convivendo com o estuprador, que é favorecido pela impunidade", desabafam.
Os ônibus que fazem o trajeto até a UEL são outro motivo de preocupação para as universitárias. Nos coletivos, o assédio por parte de homens que se "encostam" nas moças é frequente, como confirma uma estudante que não quis se identificar. "Estava no ônibus, sentou um cara do meu lado que começou a passar a mão na minha perna. O ônibus estava lotado e não consegui me levantar", denuncia ela, detalhando que tentou tirar a mão dele a todo custo, mas o homem era forte e conseguiu chegar ao fim do ato, se masturbando no local. "No final ele me ameaçou, dizendo que ia me encontrar de novo. Hoje me pergunto porque não reagi, não gritei, mas a verdade é que achei que ninguém ia acreditar", diz.
Outra estudante que também prefere se manter no anonimato contou ter sido vítima de uma série de abusos ao longo da vida. Antes mesmo de chegar à universidade, ela conta ter sido abusada por um tio, aos 12 anos. Anos depois, relatou o abuso à mãe, após saber que ele fazia o mesmo com as primas, e foi orientada a "deixar para lá". "Os adultos nem sempre protegem a vítima", lamenta.
Alguns anos depois, a mesma moça conta que saiu com um amigo, bastante conhecido da família, e foi incentivada a beber. "Senti confiança, pois ele era próximo", revela. Alterada pela bebida, ela conta que dormiu no carro e acordou na entrada de um motel. "Não entendi bem o que estava acontecendo e comecei a chorar. Ele me acalmou e disse que estava tudo bem, mas logo depois continuou avançando sobre mim, argumentando que já tinha pago pelo motel. Só parou porque liguei para o meu pai e avisei que chegaria logo em casa", afirma.
A estudante usa o próprio exemplo para mostrar a complexidade dos estupros que ocorrem no contexto das universitárias. "Sofri um abuso, mas não entendi o que tinha acontecido. Só tive consciência muito tempo depois, assim como ocorre com muitas meninas."


