Cultura do desperdício dificulta combate à fome
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2003
Amanda Brum<br> Agência Estado 
São Paulo - A quantidade de produtos alimentícios perfeitos para o consumo desperdiçada pelo Ceasa do município de São José (SC), por 50 comerciantes e 80 agricultores da Grande Florianópolis, seria suficiente para alimentar uma vez e meia a população da capital catarinense. A conclusão é da bióloga Maria Benedita da Silva Prim, que estuda há sete anos a má utilização dos alimentos.
O levantamento, que resultou na tese de mestrado da pesquisadora pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi mais além. A bióloga identificou também as perdas resultantes da não utilização de partes nutritivas de verduras e legumes que fazem parte do cardápio dos brasileiros. De acordo com o estudo, em média 31,6% da cenoura vai para o lixo, embora essa quantidade, entre folhas e cabo, pudesse ser utilizada para o preparo de outros alimentos. Para a couve-flor e beterraba, o desperdício é ainda maior, de 57,4% e 58,2%, respectivamente.
''Se considerarmos o volume comercializado pelo Ceasa de São José em outubro de 2002, esse desperdício se traduz em R$ 568,62 mil em perdas somente em um mês'', diz a pesquisadora. ''Imagine o valor a que chegaríamos, se fizéssemos a conta para todos os centros de abastecimento do País.'' Maria Prim defende que a quantidade de alimentos destinada ao lixo poderia ser utilizada pelas donas-de-casa para o preparo de outros alimentos. Em última análise, poderia ser desidratada e transformada em farinha nutritiva ou mesmo destinada a sopões para a população de baixa renda.
''Para tanto, seria necessária uma campanha educativa, com a finalidade de incentivar o uso mais racional dos alimentos'', ponderou Maria. ''Uma das principais conclusões do meu estudo foi que a fome no País é um problema cultural, uma vez que os brasileiro s não sabem utilizar todo o potencial dos alimentos que têm à sua disposição.'' Além de ensinar receitas novas para o aproveitamento de partes de legumes, frutas e verduras que hoje vão para as latas de lixo, esse processo educacional, segundo Maria, deveria incentivar também o uso de hortaliças que saíram do cardápio dos brasileiros. A pesquisadora defende que há inúmeros vegetais com alto teor nutritivo que nascem na rua e não são utilizados na culinária por pura falta de conhecimento.
''É o caso, por exemplo, do caruru e da taioba, que dão em qualquer brejo por aí, e poderiam ser utilizados para saladas, sopas e pratos diferentes'', diz a pesquisadora.
No campo - O problema do desperdício, segundo a pesquisadora, é muito mais profundo do que se pode imaginar. Além das perdas visíveis que ocorrem no dia-a-dia das casas brasileiras e em supermercados, feiras livres e sacolões, há aquela mais séria, que ocorre no campo.
De acordo com Maria, apenas 39% do plantio do País chega às mesas dos brasileiros, sendo que os outros 61% são desperdiçados. A pesquisadora explica que o agricultor acaba deixando no campo mesmo os alimentos que não atingiram o tamanho convencionado com o ideal ou os que apresentaram alguma imperfeição.
''O fato de a cenoura ter uma ponta dupla ou de a beterraba estar muito grande, por exemplo, não significa que esses alimentos não podem ser consumidos'', destacou Maria. ''No entanto, o agricultor, por saber que esse tipo de alimento não passará pelo crivo dos varejistas, acaba deixando os produtos estragarem no próprio campo''.
A pesquisadora defende que esses alimentos poderiam ser comercializados tanto pelos agricultores como pelos varejistas com cooperativas de cidadãos de baixa renda, a um preço mais acessível. ''E essas pessoas poderiam utilizar esses alimentos para fabricar outros alimentos, como tortas, mousses, bolos, sopas, o que possibilitaria matar dois coelhos com uma cajadada só: o da fome e o do desemprego'', destacou Maria.
Para tanto, além de tempo (''isso deve ocorrer apenas a longo prazo''), Maria acrescenta que será necessária uma modificação legal, uma vez que atualmente há uma lei que responsabiliza civil e criminalmente o doador de produtos alimentícios, que pode ser culpado no caso de o alimento fazer mal ao consumidor.


