Culto à criança gordinha gera adultos obesos, alerta pediatra
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domingo, 27 de junho de 1999
Por Rosangela Capozoli 
São Paulo, 28 (AE) - A relação mãe-bebê é a maior responsável pelos futuros adolescentes e adultos obesos, alertou a pediatra Esther Laundanna, na 1ª Jornada Médica de Nutrição e Obesidade de Piracicaba, neste final de semana na sede regional da Associação Paulista de Medicina. O bebê gordinho, que come a toda hora, é uma criança calma e sorridente, que deixa a mãe feliz e sem sentimento de culpa, mas este gordinho paparicado pelos adultos vai começar a sofrer depois dos 10 ou 12 anos, quando se verá isolado do grupo e advertido pela família sempre que se aproximar da geladeira.
De acordo com a médica Esther Laudanna, que assessora a Fundação de Gastroenterologia e Nutrição de São Paulo (Fugesp) para nutrição e obesidade infantil, a alimentação, em muitos casos, acaba empobrecendo a relação mãe e filho. A obesidade infantil não passa com o crescimento da criança e a família vai precisar de orientação médica e nutricional, afirmou. O encontro foi promovido pela Fugesp com apoio da Sanavita, empresa que se dedica ao estudo e produção de alimentos funcionais.
Segundo a Associação Dietética norte-americana, 15% das crianças dos Estados Unidos são obesas ou têm sobrepeso. Uma pesquisa feita em São Paulo encontrou 25% das crianças entre 10 e 12 anos com excesso de peso.
Supergordos - A obesidade mórbida, um problema de saúde que atinge cerca de 3% da população brasileira, foi discutido no encontro. No Brasil, são cerca de 4,5 milhões de supergordos, pessoas com mais de 150 quilos. A maioria delas apresenta mais de três doenças associadas, principalmente diabetes e cardiopatias. Muitas precisam dormir sentadas, respiram com dificuldade e não conseguem se locomover.
A cirurgia de redução do estômago é a única solução para muitas dessas pessoas. A fila de espera para essa operação, no Hospital das Clínicas, em São Paulo, é de mais de quatro anos. Apenas mil cirurgias desse tipo foram feitas no Brasil até agora. E o número de centros que fazem a operação não chega a 30."Nosso trabalho é divulgar e ensinar novos cirurgiões, de outros centros, para que possam fazer essas cirurgias", disse o professor Arthur Garrido, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e o maior especialista nesse tipo de cirurgia no País.
Há alguns anos os obesos tinham o intestino reduzido cirurgicamente, atualmente é feita uma diminuição importante do tamanho do estômago. Com o emprego de suturas e de grampeamento, o tamanho do estômago foi reduzido de 1.500 mililitros para 200 mililitros. A pessoa tem de comer menos de sete vezes o que comia antes e não pode ingerir mais de 200 gramas por refeição. Os pacientes chegam a perder até 40% do seu peso inicial depois de um ano.
Segundo o professor Garrido, a cirurgia é indicada para quem tem 45 quilos ou mais acima do peso normal, já tenha tentado tratamentos clínicos e não apresente quadro de alto risco. Entre os grupos que a equipe de Garrido está acompanhando está o do Hospital dos Plantadores de Cana de Piracicaba, que já fez 22 cirurgias de redução do estômago. Nos EUA, estima-se que o total de obesos mórbidos chegue a 10 milhões.
"A obesidade, que pode levar à obesidade mórbida, é o grande desafio deste final de século e do milênio que começa", disse o professor Antonio Laudanna, titular de gastroenterologia da USP, presidente da Fugesp e coordenador da jornada de Piracicaba. Do encontro também participou Joel Faintuch, professor da Faculdade de Medicina da USP e um dos pioneiros na introdução da alimentação parenteral no Brasil.
Câncer - Jocelem Mastrodi Salgado, especialista em alimentos funcionais e conhecida como a criadora da "dieta da USP", falou sobre "nutrição e obesidade". Jocelem é professora titular de nutrição humana da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba. Sua tese, defendida por centros médicos da Europa, Japão e EUA, é a de que os alimentos têm função muito importante na prevenção e mesmo no controle de doenças. Segundo ela, os últimos estudos mostram que muitos tipos de câncer podem permanecer latentes por 20 ou 30 anos. O consumo de determinados alimentos - conhecidos como funcionais - poderiam retardar ou até mesmo impedir a manifestação da doença.


