Londres (AE-NEWSWEEK) - A exemplo do Taj Mahal e da maioria das celebridades, Salman Rushdie parece menor na vida real. Sentado numa suíte revestida de madeira num hotel de Knightsbridge, em Londres, ele parece mais um banqueiro próspero ou um advogado de empresa, digamos, do que o criador de obras de ficção extravagantes como "Midnights Children" e "The Moors Last Sigh". E ele em nada se parece com os retratos de olhos escuros e nariz aquilino que foram distribuídos em quatro continentes depois que o aiatolá Ruhollah Khomeini baixou sua fatwa (decreto religioso de condenação à morte) contra "Os Versos Satânicos". Isto talvez se deva em parte à cirurgia plástica nos olhos no mês passado, mas também porque Rushdie está se livrando do mito e voltando à vida real. Depois de passar quase uma década com a cabeça a prêmio por decisão do governo iraniano, a normalidade, conforme diz, é "o mesmo que andar de bicicleta. Nascemos sabendo como as pessoas comuns se comportam." Mas Rushdie não é pessoa comum, mesmo que seja romancista de classe internacional. John Updike não mata o tempo com David Byrne. Philip Roth não tem trechos de suas obras gravados pelo U2. Acontece que Rushdie, de 51 anos, é um portento literário que pertence a outra raça.
Nome conhecido de Peoria a Peshawar, ele é a primeira celebridade global da literatura - tão famoso quanto um astro pop. Bem a propósito, seu novo livro, "The Ground Beneath Her Feed" (592 páginas, Henry Holt, US$ 26), lançado na primeira quinzena de abril, é uma história de fama e rock and roll. "Os Versos Satânicos" atacaram uma grande religião monoteísta, o islamismo. "The Ground Beneath Her Feet" ataca a grande fé politeísta moderna: a cultura das celebridades. Nesta história de amor inspirada pelo mito grego de Orfeu e Eurídice, Ormus Camus - um músico tão superdotado que canaliza melodias clássicas do Ocidente antes mesmo que elas sejam compostas - ama a indo-americana Vina Apsara, semideusa com voz de platina e sexualidade exuberante. Os amantes formam um par "mais Íntegro que os Righteous Brothers, mais Perene que os Everlys, mais Supremo que os Supremes".
A exemplo de todo jazz ou amor bons, o livro é meio desordenado. Mas que melhor maneira de descrever a paixão, ou Bombaim, ou Nova York?
Vina e Ormus são ícones, não personagens plenamente formados. Mas aí é que está a questão. E Rai, repórter fotográfico indiano estupefato com Vina, que age como narrador do livro e como terceiro lado do triângulo amoroso, é o personagem mais comovente que Rushdie já criou. É um romance repleto de temas provocantes como Amor, Morte, Fé e Mito que convivem com personagens agigantados. Versões mal disfarçadas de Elvis, Versace, Bowie e Sid Vicious perpassam por suas páginas. Larry King ali está, como também o fenômeno de Diana Morta. Letras de rock correm à solta - Rushdie pega passagens de todo mundo, de Presley a Byrne.
"Durante anos pensei que Hendrix fosse uma mulher enrugada"
diz Vina. "Sabe como é, dá licença que vou beijar este cara." Mas a gente perdoa os trocadilhos pomposos e a história esperta de Rushdie por causa do alcance mítico do livro, sua dimensão épica e enorme inteligência. A música pode parecer um salto em relação às paixões anteriores de Rushdie - o choque de culturas e os impérios em desagregação -, mas não é. Ele destaca que o rock foi um dos primeiros fenômenos verdadeiramente globais. Quando era menino de escola em Bombaim na década de 50, ele cresceu ouvindo Jerry Lee Lewis e tocando Elvis Presley na guitarra. "Talvez seja tão simples quanto a relação do ritmo 4/4 com os batimentos cardíacos", diz. "Quando essa música chegou à Índia, logo pareceu que havia vindo do bairro mais próximo."
Se o rock and roll foi o primeiro sinal de globalismo, o Caso Rushdie foi outro. Mas em sua maioria os dias da sinistra fatwa já passaram, diz Rushdie, desde que o Irã revogou a recompensa oferecida por sua cabeça, no final do ano passado. Seu segundo casamento fracassou sob as pressões da fatwa, mas em 1997 ele se casou com a redatora Elizabeth West, e o casal tem um filho de dois anos. Existe o problema dos cavalheiros pertencentes ao governo de Sua Majestade que ficam espreitando a suíte de seu hotel e sussurram em seus fones de ouvido quando alguém entra. E
quando o governo indiano finalmente concedeu ao escritor um visto de entrada no ano passado, não houve protestos da oposição
que até então afirmava que uma visita de Rushdie provocaria tumulto religioso. O escritor não tem pressa de voltar para a Índia. "Se eu não puder ser recebido com certa dignidade e respeito, prefiro não ir", diz. "Talvez me insultem lá."
Talvez o insultem, mas provavelmente não o matarão. Ele caminha pelas ruas - evitando mesquitas - e pode viajar na maioria das companhias aéreas. Aparece com frequência em restaurantes e festas chiques e diz que já não tem medo. Insiste que seu grande desafio agora é convencer as pessoas de que está levando uma vida bem normal. Mas ele não está, claro. Pois Rushdie é hoje um superastro - um grande cronista da aldeia global. Apesar da inspiração que o livro extrai da mitologia grega e hindu, por mais que ele faça mesuras a Nabokov e E. M. Forster e por mais que teça confabulações sobre deuses e arte, "The Ground Beneath Her Feet" é um livro sobre o modo como vivemos hoje. Foi escrito por alguém que está observando a terra bem de perto - mas a uma certa distância.

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