Cubano-americanos criticam radicais de Miami Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 09 (AE) - "O povo norte-americano está absolutamente horrorizado com essa atitude radical dos grupos (anticastristas) da Flórida, porque eles estão agindo como se estivessem declarando um Estado independente e soberano em Miami", disse à Agência Estado o advogado cubano-americano José Pertierra, um especialista em questões de imigração.
Ele falava sobre a atitude dos líderes de alguns dos grupos de imigrantes cubanos de tentar impedir que Elián González, o menino cubano resgatado no mar em novembro, seja entregue a seu pai, Juan Miguel González, que vive em Cuba, e de continuar a usar o garoto de seis anos como bandeira de sua luta contra o regime do presidente Fidel Castro.
A mãe de Elián, que era separada de Juan Miguel, morreu na trágica travessia com outras nove pessoas. O menino foi criado e vivia com o pai em Cuba. O Serviço de Imigração e Naturalização (INS, por sua sigla em inglês) confiou sua custódia temporária a um tio-avô, Lázaro González, que mora em Miami e até agora resistiu a facilitar o retorno de Elián a seu pai.
Pertierra compreende as emoções suscitadas pela batalha em torno de Elián. Ele imigrou para os Estados Unidos quando era menino e foi criado por parentes que tinham ódio visceral por Fidel Castro e romperam com os membros da família que apoiaram a revolução socialista e permaneceram na ilha.
"Essa divisão irreconciliável é a realidade de muitas famílias cubanas", disse ele, falando em espanhol.
No caso de Elián, contudo, Pertierra insiste desde o início do caso que o único desfecho possível é o que as autoridades americanas começaram a preparar na quinta-feira, quando Juan Miguel González chegou a Washington para reclamar pessoalmente a custódia do filho. Por ordem do Departamento de Justiça, Lázaro González terá de entregar o menino ao pai nesta semana.
A secretária da Justiça, Janet Reno, confirmou hoje que não prorrogará mais os prazos e a tranferência de Elián a Juan Miguel terá de ocorrer nesta semana.
Gregory Craig, o advogado de Juan Miguel, e Eric Holder, o vice-secretário da Justiça, disseram hoje que a entrega de Elián a seu pai poderá ocorrer em Washington ou em outro lugar, mas descartaram a possibilidade de ela se dar em Miami, por causa do clima político inflamado na cidade.
Segundo Craig, que foi contratado e está sendo pago por igrejas protestantes de Washington para representar Juan Miguel, seu cliente "está consciente das possibilidades que estão à sua disposição nos Estados Unidos depois de sua reunião com seu filho e de que eu continuarei a representá-lo, se ele assimdesejar".
A afirmação é uma referência à possibilidade de Juan Miguel, que já disse querer voltar com Elián para Cuba, mudar de idéia e decidir permanecer nos Estados Unidos. Para muitos cubanos que vivem nos EUA, este seria talvez o fim ideal do drama.
Emílio Cueto, um advogado do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em Washington, está entre os que pensam assim. Ele veio menino para os EUA, mandado por sua mãe. "Sou muito grato à minha mãe pela decisão que ela tomou", disse Emílio. "Cuba não é um lugar onde eu gostaria que meu filho vivesse, mas Elián não é meu filho e respeito a decisão de seu pai."
Segundo Pertierra, provavelmente a maioria dos cerca de 2 milhões de imigrantes que deixaram a ilha reconhece e compreende o direito de Juan Miguel de decidir o que é melhor para seu filho.
Se não se manifestam, é por causa a atmosfera de intimidação que os grupos anticastristas mais radicais criaram na comunidade
nos últimos 40 anos.
"Alguns poucos grupos políticos dominam a discussão, fazem toda a mobilização e a gritaria, têm dinheiro e conseguem silenciar muitos cubanos que não são tão politizados, mas temem represálias em termos físicos e também profissionais, de carreira, pois esses grupos boicotam negócios, impedem contratações e promoções", diz Pertierra. "Os líderes anticastristas nos EUA falam muito em liberdade, mas são absolutamente intolerantes com qualquer pessoa que discorde deles."





