O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) anunciou ontem a criação de uma série de medidas para tentar contornar um problema que há tempos atinge a classe médica: o expressivo número de profissionais dependentes de drogas. Submetidos a uma rotina estressante, sentindo-se cobrados pela sociedade e, ao mesmo tempo, inibidos para buscar ajuda, muitos desses profissionais acabam retardando o início de uma terapia.

''Precisamos auxiliá-los. Não podemos esperar que eles tenham uma atitude espontânea'', afirma o psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ronaldo Laranjeira, responsável por uma pesquisa que norteou a decisão do Cremesp. Laranjeira analisou casos de 206 médicos dependentes químicos que buscaram espontaneamente tratamento. Os resultados obtidos pelo estudo foram tão consistentes que o Cremesp julgou necessário tomar providências antes mesmo que uma pesquisa de maior porte fosse feita. Cerca de 30% dos médicos ouvidos foram demitidos nos 12 meses anteriores ao estudo e 20% tiveram problemas com a Justiça.

A pesquisa demonstrou ainda que quase um terço dos entrevistados apresentava outra doença psiquiátrica além da dependência. O problema mais frequente foi depressão (em 21% dos entrevistados).

O Cremesp deve criar um atendimento telefônico 24 horas para os profissionais. No serviço, eles poderão receber aconselhamento rápido e encaminhamento para uma rede de tratamento.

Mortes ''Conheci muitos colegas que foram se afundando até se acabarem. Pelo menos três morreram de overdose. Para sair daquilo, você precisa querer muito, arrumar uma meta na vida, por exemplo, uma pessoa de quem você goste muito. E vai precisar de um acompanhamento psiquiátrico.''

O anestesiologista José Carlos (nome fictício), 40, ainda se considera na zona de risco que envolve o uso de opiáceos. Faz dois anos que parou com o consumo, depois de sete anos de dependência. Ele usava o opióide meperidina, um opiáceo sintético -derivado da morfina, produzido em laboratório. É um analgésico narcótico injetável, empregado em pacientes com dores intensas. ''Provoca uma sensação agradável, de leveza, uma certa euforia. A pessoa não consegue deixar de usar, perde a compostura, não importa onde esteja'', relata o médico. A meperidina é o princípio ativo de drogas como a Dolantina e o Dolosal.

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