CRM investiga uso de Cytotec em gestantes
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quinta-feira, 09 de outubro de 2003
Andréa Bordinhão<br> Equipe Folha 
Curitiba - O Conselho Regional de Medicina (CRM) vai instaurar uma sindicância para apurar as acusações contra os médicos ginecologistas Eldo Ern e Cristina Cerniak, de São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba. A informação é da assessoria jurídica do conselho. Os médicos foram denunciados pelo Ministério Público (MP) de São José por utilizarem o medicamento abortivo Cytotec em pelo menos 400 mulheres grávidas pouco tempo antes da data de elas darem à luz no Hospital e Maternidade Muncipal São José dos Pinhais. De acordo com o MP, o objetivo era adiantar os partos para que fossem feitos em seus plantões, revertendo o pagamento para eles.
Além da acusação de usar o remédio abortivo em pacientes, os médicos estão sendo investigados por dupla cobrança. O Sistema Único de Saúde (SUS) pagava pelos procedimentos, mas mesmo assim eles cobravam à parte das grávidas. Esse foi o caso da dona de casa Simone Aparecidade de Souza, 24 anos. Ela fez uma cesariana com o médico Ern em maio deste ano pelo SUS. Ela afirmou ontem, em entrevista à Folha, que Ern ainda cobrou R$ 300. O médico devolveu o dinheiro. ''Na terça-feira (7 de outubro) o doutor Eldo (Ern) me chamou no consultório dele, me devolveu os R$ 300 e fez eu assinar um documento dizendo que na época do nascimento do meu filho eu não paguei nada'', conta.
Em entrevista à Folha, os médicos afirmaram que possuem comprovantes das pacientes que pagaram como particular e das que o SUS custeou os procedimentos. ''Em muitas das pacientes não recebemos nada do SUS. O dinheiro não veio para nós. Eles vão ter que provar'', argumentou Cristina. O Ministério Público colheu depoimentos de funcionários da área administrativa do hospital que afirmaram terem sido procurados pelos médicos para alterar registros de convênios. No entendimento do MP, eles mudaram o registro de pacientes para constar que elas pagaram como particulares e não pelo SUS.
O ex-diretor geral do hospital, Roberto Talamini Espinola, afirmou que na sua gestão todos os médicos assinaram um termo de compromisso, onde eram proibidos de praticar dupla cobrança e os pacientes também assinavam um termo afirmando que não pagaram nada pelo internamento. Ele ressalta que nunca recebeu nenhuma denúncia de dupla cobrança. ''Como eu poderia saber se existia dupla cobrança? Só por denúncia e isso nunca aconteceu.'' Quanto ao uso do Cytotec, Espinola afirmou que os dois médicos cumpriam todos os protocolos legais de uso do Cytotec e por isso a direção do hospital nunca teve motivos para desconfianças. ''Se eles usavam demais ou de menos os remédios são conjecturas. Isso precisa ser provado'', argumentou.
O MP ajuizou, na quarta-feira, uma ação para impedir a entrada dos médicos no hospital. Outra ação, que contém provas tanto da prática de dupla cobrança quanto do uso do Cytotec, está sendo preparada pelo MP. Os médicos se defenderam dizendo que usavam o medicamento com base em um estudo científico e somente em gestantes que estavam ansiosas no momento do parto e também para evitar cesarianas. Eles afirmaram ainda que sempre tiveram o aval das pacientes para aplicar o remédio, o que foi contestado por uma mãe entrevistada ontem pela Folha.


