Críticos da liberalização agrícola preparam "guerra" em Seattle
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terça-feira, 31 de agosto de 1999
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 01 (AE) - A três meses da terceira reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle (EUA), onde deve ser lançada uma nova rodada de negociações comerciais, as pressões dos setores contrários a uma maior abertura dos mercados agrícolas começaram a intensificar-se.
Esses grupos estão usando até a Internet para recrutar milhares de manifestantes para uma ampla mobilização contra a OMC. Os opositores do livre comércio e da globalização, principalmente na área agrícola, criaram um site (www.seattlewto.org) com informações e slogans que servirão para os futuros manifestantes na "guerra" que pretendem travar em Seattle. "Não a uma nova rodada de negociações na OMC. Queremos
se tanto, uma rodada de reavaliação", diz o texto de apresentação do site, que traz ainda informações sobre os locais onde os adeptos do "não" poderão hospedar-se.
Mas os ministros de Comércio, Relações Exteriores e de Agricultura dos 135 países membros da OMC não só enfrentarão esses grupos como também militantes ambientalistas, sindicalistas e agricultores furiosos contra a eventual liberalização do mercado agrícola.
A Sociedade Ruckus, organização norte-americana contrária à globalização e à liberalização do comércio agrícola, por exemplo, organizou um acampamento de "ação" para ensinar os ambientalistas a "pular barreiras, escalar edifícios e formar barreiras humanas" com objetivo de perturbar a reunião. Os líderes da Sociedade Ruckus declaram que estão se organizando para "travar uma guerra de protestos" durante o encontro da OMC.
Divergências - Diante da intensificação dessas pressões, é difícil acreditar que os EUA apoiarão o Grupo de Cairns na meta de incluir a questão agrícola nas negociações da futura Rodada do Milênio. O tal "apoio" que o ministro de Agricultura norte-americano, Dan Glickman, disse existir para a inclusão desse tema já esbarrou, de cara, em Charlene Barshefsky, a influente representante para o comércio externo dos EUA (USTR).
Barshefsky, que presidirá a reunião de Seattle, condiciona a abertura do mercado agrícola e a redução dos subsídios a uma maior abertura em outros setores, como serviços e telecomunicações, por exemplo.
Glickman, que participou no final de semana passado da reunião do Grupo de Cairns em Buenos Aires, reconheceu que existem divergências entre o USTR e o Departameto de Agricultura (USDA). Pelas declarações de Glickman, os EUA querem "convergência de interesses", mas não "alianças".
Com isso, ficou claro que os EUA e o Grupo de Cairns têm profundas diferenças, principalmente no que se refere aos créditos (subsídios) às exportações. O Grupo de Cairns quer mais disciplina na concessão desses créditos, oferecidos aos exportadores norte-americanos, que afetam os produtos dos países que dependem substancialmente de suas exportações agrícolas.
Subsídios internos - Há também diferenças no tema que se refere ao apoio concedido à produção doméstica, subterfúgio para os subsídios internos. Essas ajudas são medidas pelos PSEs (Producers Subsidy Equivalentes), que representam os valores de apoio aos agricultores como proporção ao valor total da produção agrícola. Agricultores de alguns países como na Nova Zelândia, por exemplo, recebem 3% do valor da produção agrícola e os da Austrália, 9%. Já os agricultores europeus recebem um PSE de 43% e os do Japão, 71%.
É por esses e por outros motivos que a concorrência no mercado agrícola mundial vem aumentando cada vez mais e as diferenças já existentes entre os EUA, Europa e os países do Grupo de Cairns são cada vez maiores. Mas um aspecto parece completamente certo: norte-americanos e o Grupo de Cairns devem pressionar juntos para reduzir as barreiras tarifárias e não-tarifárias, impostas pelos países europeus.
O embaixador do Uruguai perante a Comissão Européia, Guillermo Valles, disse em Buenos Aires que hoje os EUA têm uma posição pouco mais aberta sobre a liberalização agrícola. Mas, acrescentou o embaixador, "é bom ficar atento na questão dos créditos às exportações, na qual ainda os norte-americanos são bastante conservadores".


