Críticos apostam no samba para Chico
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sábado, 21 de fevereiro de 1998
Adriana Ferreira Agência Estado 
Em um carnaval em que os sambas-enredo das escolas cariocas não caíram na boca do povo, a avenida poderá revelar qual a batida que conquistou o coração dos foliões. Críticos e especialistas têm uma aposta da pesada: a Mangueira. Ironia da vida, o samba que causou polêmica porque leva a assinatura de autores paulistas, amanhã deve mostrar a que veio.
O pesquisador Ricardo Cravo Albim acha que o povo já deu o seu aval para a música que homenageia o compositor Chico Buarque de Holanda, quando a elegeu na quadra. Essa discussão toda é uma tolice, o samba se adapta como luva ao desfile, garante Cravo Albim. Na Avenida, a música pode crescer mais ainda. prevê. Mangueirense, Hermínio Bello de Carvalho, acha que não dá para avaliar a força de um samba antes do desfile. Ele (o samba) se prova na avenida.
Da mesma teoria de Bello de Carvalho, Haroldo Costa arrisca, mesmo antes do espetáculo do Sambódromo, algumas opiniões. Costa aprecia a melodia de Chico Buarque da Mangueira e lembra ainda de um triunfo imbatível que a verde-rosa tem nas mãos, que atende pelo nome de Jamelão. Ele sempre altera o valor de uma música, e sempre para melhor, elogia. Amanhã e terça-feira, dias do desfile, Costa ficará ainda de olho na Viradouro e na Visa Isabel: pode dar samba dos bons na Sapucaí.
Outra tradicional, a Portela, também pode ser uma surpresa na Sapucaí. O pesquisador Ricardo Cravo Albin tira o chapéu para a música de Noca da Portela. Ele é um irresistível compositor, com um trabalho de alta qualidade e beleza, reverencia. Haroldo Costa faz coro: A Portela desfila com a marca do Noca.
Mas não cabe à Portela e à Mangueira a unanimidade entre os entrevistados. O brilho da bandeira vermelho e branco do Salgueiro é uma possibilidade bastante viável. Vai dar um embalo, diz o pesquisador José Carlos Rego sobre o samba-enredo que fala da festa do boi, em Parintins. O samba tem uma letra um pouco lugar comum, mas na quadra cresce muito, comenta Haroldo Costa. Portela e Salgueiro podem dar uma reviravolta na Avenida, arrisca.
Costa acha perda de tempo se discutir a importação de enredos e sambistas para as quadras cariocas. Até porque, argumenta, isso não é novidade. Ele lembra que, em 1974, o Salgueiro veio com o Rei da França na Ilha da Assombração, com a assinatura de um compositor paulista. E fez o maior sucesso. Jamelão, Delegado e outros desfilaram durante vários anos em escolas de São Paulo. Não é necessário fazer um cavalo de batalha, pensa.
Grande RioDiscussões à parte, Haroldo aplaude a Grande Rio, que este ano decidiu investir em um enredo que pode parecer árduo mas...É uma letra simpática, bem resolvida, quero ver isto na avenida. É muito bem-humorado, ressalta Cravo Albin. O pesquisador José Carlos Rego confia na melodia. Ela é muito forte.
Rego define o samba de Vila Isabel como um clássico e o da Caprichosos como equilibrado e sem exageros. Para ele, a safra deste ano é das melhores. Há algum tempo que não temos um conjunto de sambas de qualidade, ressalta.
Há seis anos produtor de discos de sambas-enredo, Jorge Cardoso acha que este ano não existe uma composição que arrebate a público. Para ele, o último grande boom nas paradas foi há cinco anos, com Explode Coração. Antigamente as rádios tocavam mais as músicas. Um trabalho de marketing agressivo seria, na opinião de Cardoso, a chave da história. Não há um tratamento como o que existe para outros artistas, fala.
Na tentativa de driblar a mesmice e de abocanhar mais compradores, a presidência do Salgueiro decidiu gravar um CD independente. E não se arrepende. De acordo com o vice-presidente da escola, Paulo César Mangano, a branco e vermelho do bairro da Tijuca faturou muito mais agora do que se tivesse gravado com as 13 escolas. Os cálculos que tem em mãos são a sua prova definitiva: no ano passado, o Salgueiro recebeu R$ 78 mil com a venda de 400 mil cópias vendidas. Este ano, o CD das escolas de samba, segundo Mangano, vendeu 50% a menos do que em 97 e, por conta disso, o Salgueiro só ganharia R$ 39 mil.


