Críticas de europeus não sensibiliza a Rússia Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 07 (AE) - A União Européia "não manda dizer" a Moscou; ela está muito insatisfeita com o que fazem os soldados na Chechênia. E ela não se limita a franzir as sobrancelhas; ela vai mesmo "punir" a dupla Yeltsin/Putin, recusando-se a assinar alguns acordos previstos sobre a pesquisa científica. Uma surpresa desagradável para os russos!
É assim, pelo menos, nesse momento, que a Europa se manifesta sobre a provável aniquilação de uma cidade que era constituída de 350 mil habitantes, em 1994, Grozny, a capital da Chechênia, essa Chechênia que submetera a Rússia a uma atroz humilhação militar em 1994-1996.
Infelizmente, esses chechenos não só têm o direito de ser muçulmanos. Eles têm também uma coragem de leão. E resistem sempre nas cinzas: no fundo dos porões, devem restar 40 mil pessoas (soldados inflexíveis, velhos intransportáveis, velhas e crianças) ainda que os generosos russos tenham dado esse inacreditável ultimato: saiam de Grozny! Se não, no dia 11 de dezembro, vocês serão destruídos!
As contorsões dos europeus, até aqui, não incomodaram o Kremlin, pois a guerra de Grozny entusiasma o povo russo: os chechenos, que são turbulentos, é verdade, e de bom grado um pouco "fora da lei" são detestados pelo povo russo. Os soldados russos, tão privados de consideração, pensam que encontraram sua honra bombardeando Grozny.
Sobretudo os dirigentes do Kremlin se alegram. Após dez anos de desastres e de vergonhas, a Chechênia é um milagre para eles; ela refaz a unidade em farrapos da nação, dá ao primeiro-ministro Vladimir Putin, o amigo dos generais, uma estatura de homem de Estado e isso ilumina deliciosamente a sombria paisagem política da Rússia. Além disso, se a destruição de Grozny sob o fogo e o metal está fixada para o dia 11 de dezembro, é porque as eleições para a Duma vão se dar alguns dias depois. É preciso extrair o máximo de benefício da Chechênia, respirar todos os perfumes e "extrair todo o seu suco".
E essa "divina surpresa", esses casamentos entre o povo russo e dirigentes ainda ontem desprezados, é uma chance tão grande que permite ao Kremlin ignorar as advertências dos ocidentais. Mais extraordinário ainda para Yeltsin/Putin: o desafio lançado aos europeus e aos americanos atende aos anseios das populações russas que, desde o início do drama checheno, estão feridas com o fato de a opinião européia não aplaudir as miseráveis explorações dos tanques e helicópteros de Putin.
De repente, realiza-se na Rússia o que Freud denominou uma "virada do recalque". Esse "recalque" é o ódio que uma parte dos russos carrega do Ocidente, de um lado, por lembrança da "guerra fria" e, por outro, porque o Ocidente, desde 1989, humilhou a Rússia fracassando sua passagem ao liberalismo (e, na verdade, ao mafiosismo), ampliando a OTAN aos antigos países comunistas do Leste, intervindo no Kosovo (ex-Iugoslávia), estabelecendo relações com países do Cáucaso que buscam simplesmente escapar da órbita russa (o Azerbaijão, a Geórgia...)
Assim, a morte de centenas de milhares de chechenos, aos olhos do mundo, ratifica não só a deriva da Rússia de Yeltsin/Putin em relação a horizontes tenebrosos e inquietantes, mas principalmente o triste fracasso de toda a política conduzida pelo Ocidente na Rússia, depois da explosão do sistema comunista, durante dez anos em que não se pôde criticar a sustentação dada a Yeltsin sem imediatamente ser acusado de sustentar os "vermelhos/marrons", esse misto de fascistas, de ultranacionalistas e de antigos comunistas que formigam em Moscou.
O Ocidente jamais ousou enfrentar a realidade russa deteriorada do período pós-comunista. E, hoje, essa mesma Europa, enfim acordada, vê o fruto da mistura de medo e de cegueira que ocupou o lugar da política durante dez anos: o crime de Grozny.





