Critério das metas de inflação pode mudar
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quinta-feira, 30 de março de 2000
Por Rita Tavares 
São Paulo, 31 (AE) - Uma possível modificação em relação às metas trimestrais, na quinta revisão do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), não é considerada "relevante" pelo governo, mas há espaço para alterações futuras no critério, disse hoje o ministro da Fazenda Pedro Malan. Ele considerou a opção pelas metas trimestrais como uma opção "transitória e passageira", tendo em vista que outros critérios de avaliação não teriam sentido depois que o país adotou a livre flutuação da moeda.
Segundo ele, o sistema de metas inflacionárias é definido pelo período de um ano, o que tiraria importância da evolução trimestral, mensal ou semanal da inflação. "O que importa é o compromisso assumido com a meta do ano. Não estou nem um pouco preocupado com o desempenho das metas em outra periodicidade", disse o ministro, após participar de seminário promovido pela consultoria Tendências.
Ao mesmo tempo, o ministro disse que, em função do processo de mudança por que passa o FMI, há espaço para alterações futuras. Segundo ele, o critério de crédito doméstico líquido, usado nos acordos anteriores, não fazia sentido para uma política de câmbio flutuante. Daí a opção, talvez "transitória e passageira", pela referência trimestral. Malan criticou o que chamou de obsessão de alguns por qualquer número do relatório do FMI que não sejam os das páginas. As metas trimestrais entrariam neste caso.
O governo estabeleceu com o FMI metas trimestrais para a inflação, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A expectativa do mercado é de que algumas dessas metas não sejam cumpridas, em virtude do forte aumento do petróleo no mercado internacional no início do ano por conta da redução de oferta dos países produtores.
As metas, com base no acumulado em 12 meses, correspondem a 7,5% em março, 7% em junho, 6,5% em setembro e 6% em dezembro 6%.
Nível das reservas - Malan disse também que o nível de reservas internacionais líquidas - descontado o valor dos empréstimos feitos pelo FMI e pelos bancos oficiais - será reduzido na quinta revisão do acordo do governo brasileiro com o fundo.
Segundo ele, isso já está decidido, embora ele não tenha informado qual será o novo patamar. Malan disse que a redução foi proposta porque é do interesse do País. "Não queremos ter um piso de reservas internacionais que seja percebido como excessivamente elevado por aqueles que acham que isso impõe restrições às condições do governo conduzir sua política macroeconômica", limitou-se a dizer o ministro.
Malan avaliou ainda que o impacto do aumento do salário mínimo na inflação não pode ser menosprezado. De acordo com o ministro, o efeito dependerá da maneira que cada Estado decidir sobre possíveis elevações acima dos R$ 151,00.
A projeção de 0,3 ponto percentual que consta no relatório de inflação apresentado hoje pelo Banco Central aplica-se apenas ao item "empregada doméstica" do IPCA. Segundo Malan, não é uma projeção ampla do impacto do reajuste. O ministro recomendou cautela e atenção aos governadores na definição de um valor superior ao mínimo nacional, alertando que cada um deve levar em conta suas limitações fiscais.
Segundo ele, as prefeituras do Norte e do Nordeste do País terão dificuldades em bancar valores superiores. O ministro também teme que uma alta possa aumentar o mercado de trabalho informal.
Risco no crédito - O ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, teme que a expansão do crédito neste ano seja um fator de risco para a política monetária. Ele prevê um aumento do volume de crédito entre 15% e 20% ao longo de 2000. "O BC vai voltar a se preocupar com questões relativas a crédito", afirmou, ponderando que ainda há pressão por custos não repassados ao consumidor, que poderão ser viabilizados com a oferta de crédito, colocando a meta inflacionária sobre ameaça. "O BC vai ter de ser conservador na taxa de juros e não aceitar pressões a favor da queda", disse.
Segundo ele, a expansão do crédito virá de quatro razões: menores taxas de inadimplência, menores nível e volatilidade da taxa de juro; aumento da confiança do consumidor e necessidade de expansão das carteiras ativas dos bancos de varejo. Ele projeta uma taxa média Selic de 17,5% para 2000. O único fator inibidor da oferta de crédito, de acordo com Loyola, é a nova regulamentação de classificação de crédito imposta pelo BC ao sistema financeiro.


