Brasília, 23 (AE) - A declaração do presidente Fernando Henrique Cardoso de que é golpista a Marcha dos 100 Mil convenceu o ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque a participar do protesto. "Não estava muito entusiasmado, mas as declarações do presidente foram jogo baixo", disse ele hoje. "Golpe é quem se elege prometendo criar emprego e não cria." O ex-governador anunciou que está mobilizando seus "conhecidos e colegas de trabalho" para engrossar a marcha. "Não é muita gente, mas vamos levar propostas", disse Cristovam, que nos últimos anos foi um dos principais interlocutores da esquerda com o presidente e esteve cotado para colaborar informalmente com Fernando Henrique, após a derrota em sua tentativa de reeleição no DF.
O ex-governador criticou os que pedem a renúncia de Fernando Henrique, como o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, e o próprio slogan da marcha, que prega "Fora FHC". "Não acho que o presidente tenha cometido nenhum crime, mas sim um equívoco atrás do outro e muita insensibilidade", afirmou. "Os golpes costumam ser tramados dentro dos palácios e geralmente vão contra as manifestações populares." Para Cristovam, lutar pela saída de FHC neste momento é "pedagogicamente" ruim para a democracia: "O povo precisa saber que, quando elege um presidente, vai ter de aguentá-lo por todo o mandato", argumentou. "É um casamento de quatro anos, com o que há de bom e ruim." Segundo ele, a oposição precisa trilhar o caminho da eleição presidencial de 2002 para chegar ao Palácio do Planalto.
O objetivo da Marcha dos 100 Mil, na opinião do ex-governador, deve ser o de forçar o governo a "mudar de rumo" nos três anos e quatro meses de mandato que Fernando Henrique tem pela frente. Na quinta-feira, o ex-governador estará defendendo mais uma vez o programa de bolsa-escola nacional, que concederia uma ajuda financeira às famílias de 10 milhões de crianças matriculadas na escola. O custo do projeto seria de R$ 2,6 bilhões por ano, segundo Cristovam.
"Apresentei essa proposta ao presidente pela primeira vez em dezembro de 1994", contou, informando que o valor estimado do programa representa 1% da arrecadação somada dos governos estaduais, municipais e federal ou apenas 10% do superávit primário global do setor público acertado pelo governo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Atualmente presidindo a Organização Não-Governamental Missão Criança, o ex-governador defenderá também a contratação de 500 mil professores de ensino médio e fundamental (antigos 2.º e 1.º grau) em todo o País. "Precisamos investir em educação."
Professores - O Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro) promete levar cerca de 10 mil alunos e professores à Marcha dos 100 Mil. Na semana passada, cerca de 3 mil docentes reunidos em assembléia decidiram suspender as aulas na quinta-feira. O movimento deverá receber o apoio dos funcionários, que realizarão assembléia na quinta-feira, às 9 horas. As duas categorias reivindicam reajustes salariais e reúnem aproximadamente 40 mil profissionais, apenas na rede pública.
Segundo a diretora de Imprensa do Sinpro, Rejane Pitanga, o sindicato vai enviar cerca de 150 ônibus às escolas para o transporte de alunos até a Esplanada dos Ministérios. "Estamos recomendando aos colegas das escolas particulares que também parem", afirmou Rejane. A Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do DF informou que haverá aula normalmente no dia da marcha.
Na Universidade de Brasília (UnB), o período de férias enfraqueceu a mobilização dos estudantes. As aulas só recomeçam na segunda-feira e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) tem-se limitado a distribuir panfletos convocando os alunos para a marcha. "Estamos fazendo campanha especialmente com os calouros, que não conhecem os problemas da universidade", disse a secretária-geral do DCE, Veruska Alves.

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