Cristãos e muçulmanos falam de "diálogo de civilizações"
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quinta-feira, 30 de dezembro de 1999
Por Marwaan Macan-Markar 
Cidade do México (AE-IPS) - Líderes cristãos e muçulmanos sublinharam a necessidade de um "diálogo de civilizações" entre ambos os credos, enquanto os cristãos celebram o nascimento de Cristo e os muçulmanos comemoram o mês do Ramadã.
Representantes do Conselho Mundial de Igrejas e teólogos islâmicos do Irã concordaram na reunião realizada em Genebra que tal diálogo é necessário perante os desafios que enfrentarão ambas as religiões no novo milênio.
"A cristandade e o Islã enfrentam de maneira diferente vários desafios devido ao ressurgimento da fé religiosa", advertiu Tarek Mitri, membro libanês do Patriarcado Grego Ortodoxo de Antióquia e coordenador da reunião de Genebra.
Os delegados do "Colóquio Cristão-Muçulmano sobre o futuro da religião" consideraram, em particular, dois desafios: a previsão de que a religião dominará a vida no século 21 e a tendência atual às "manifestações extremistas".
"É essencial que a gente de fé, em diálogo, reflita sobre o uso e o abuso dos sentimentos religiosos", declarou Mitri.
O significado deste diálogo inter-religioso foi o centro também do último informe de Abdelfattah Amor, relator especial de Intolerância Religiosa para a Organização das Nações Unidas (ONU). Amor pediu que se elabore "uma estratégia preventiva" para deter a intolerância religiosa, em seu informe apresentado ante a Assembléia Geral da ONU. Essas medidas deveriam centrar-se no diálogo, já que oferecem uma via para mudar a mentalidade das pessoas.
Amor alegou também que, dada a importância crítica de seu mandato, deveria deixar de centrar-se na "intolerância" e focalizar a atenção na "liberdade de credo e de opinião".
A discriminação explícita e implícita causaram impacto sobre o cristianismo, o islã, o hinduísmo, os adventistas do Sétimo Dia, os cientólogos e as testemunhas de Jeová, segundo o informe de Amor. Os meios de comunicação de Alemanha, Austrália e Estados Unidos, por exemplo, tiveram um papel dominante na fabricação do estereótipo e o retrato negativo de certas minorias religiosas, sobretudo os muçulmanos, sustentou Amor.
Já Afeganistão, Bangladesh, Indonésia, Nigéria e Paquistão foram um cenário propício para a propagação da intolerância devido ao extremismo islâmico. Por outro lado, aumentou bastante o fanatismo hinduísta "dirigido contra as comunidades cristã e muçulmana" na Índia e no Nepal.
O atual incremento da intolerância religiosa, no entanto, não se limitou ao fanatismo de certos credos, mas se produziu entre os diversos setores de uma mesma religião. A intolerância no México, país com a maior comunidade católica depois da do Brasil
se levantou contra as igrejas evangélicas.
As igrejas evangélicas atraem fiéis da zona rural do país, sobretudo nos estados sulistas de Chiapas, Guerrero e Oaxaca, o que provocou enfrentamentos, expulsões, prisões e inclusive "procedimentos tipo inquisição" por parte da Igreja Católica.
O líder da Igreja Apostólica Evangélica, Adoniran Gaxiola, assinalou que a maioria dos incidentes de intolerância foram instigados pelos católicos, para quem os grupos evangélicos são "seitas fanáticas".
Membros do governo informaram que ocorrem ao menos dois incidentes mensais de intolerância religiosa no México.
Alguns governos também foram responsáveis por alimentar o fanatismo religioso, segundo o informe de Amor, que apresentou o exemplo do movimento Taliban, que governa a maior parte do Afeganistão, onde "em nome do Islã são perseguidos não só as minorias não-muçulmanas, como os próprios muçulmanos".
As vítimas no Sudão foram os cristãos, os seguidores das religiões tradicionais e os muçulmanos que não concordam com a interpretação do Islã das autoridades, segundo o informe mundial sobre a liberdade de culto publicado em setembro pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.
O documento critica também a legislação discriminatória do Paquistão, que permitiu a propagação da intolerância religiosa. Cristãos, hindus e seitas muçulmanas menores foram vítimas perseguição e assassinato, como vingança.
Mas o extremismo e a intolerância que hoje prevalecem não devem ser tratados como "fenômenos peculiares à religião", insistiu Mitri, que no entanto admitiu que "podem ter uma dimensão religiosa".
Trinta e dois muçulmanos e cristãos de 15 países dialogaram em busca de medidas para solucionar o problema em outra reunião entre representantes de ambos os credos organizada pelo Conselho de Igrejas em outubro. Todos estiveram de acordo que "cristãos e muçulmanos devem conhecer bem o direito internacional sobre liberdades religiosas, onde o conceito de respeito está enraizado com o de dignidade humana".
Os representantes reunidos sugeriram então que ambas as comunidades deveriam aceitar e respeitar a diversidade das expressões religiosas do mundo, e cultivar essas idéias entre os membros de seu credo.
"Muçulmanos e cristãos deveriam produzir material em conjunto para educar suas comunidades", declararam. Também houve consenso sobre a importância de "fortalecer e ampliar o alcance do diálogo" para poder respeitar os direitos das comunidades religiosas mais além "da resposta de cada um". A reunião de Genebra foi, segundo Mitri, a afirmação dessas prioridades que sentiam os cristãos e muçulmanos no passado recente.


