Crises externas continuam assombrando economia brasileira
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sábado, 28 de outubro de 2000
Por Leandra Peres Agência Estado De Brasília 
O velho fantasma das crises externas ronda de novo o Brasil. Desde o início do Plano Real, todos os ensaios de retomada do crescimento economia brasileira esbarram sempre nas turbulências do mercado externo.
Primeiro foi o México, depois a Ásia, em seguida a Rússia, e agora a Argentina. Se o contágio da crise no País vizinho é inevitável para o Brasil, dessa vez os economistas concordam em dois pontos: a situação fiscal e o câmbio contribuem para reduzir o impacto da crise, mas o Brasil continua patinando no déficit externo, que ainda é muito elevado por qualquer padrão.
O ex-secretário de Política Econômica, José Roberto Mendonça de Barros, que enfrentou as três primeiras crises no cargo, avalia que o problema na Argentina não é tão dramático quanto foram os ataques especulativos na Ásia, em 1997, e a moratória russa, em 1998, que acabou levando à desvalorização do real no Brasil. Além do cenário internacional, o ex-secretário aponta a mudança no câmbio, que passou de um sistema de bandas para a livre flutuação, como a mais eficiente barricada contra as turbulências do momento.
A política de bandas cambiais fazia com que o ajuste recaísse sempre na política monetária, que se traduzia em aumento de juros, explica Mendonça de Barros. Hoje, o câmbio flutuante é muito mais flexível e absorve parte do choque.
O professor Dionísio Carneiro, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), lembra ainda que hoje há muito mais disposição dos organismos internacionais de agir preventivamente nas crises, o que por si só reduz a volatilidade nos países emergentes.
O outro escudo que o Brasil tem conseguido manter, erguido contra o contágio da crise na Argentina, é o ajuste fiscal. O País tem conseguido gastar menos do que arrecada e tem hoje um saldo positivo de 35,3 bilhões de dólares em suas contas. Em 1997, quando estourou a crise da Ásia, o Brasil fechou o ano com um déficit de R$6,133 bilhões. Na avaliação do economista Roberto Padovani, o Governo vem mostrando firmeza na condução da política fiscal. Pela primeira vez desde o Plano Real, o discurso político no País está considerando a necessidade de compatibilizar gastos e receitas, o que é bastante positivo, diz o economista.
Contas externasO Brasil teve uma saída rápida da recessão depois da desvalorização, mas não está em condições de registrar um crescimento sustentado, avalia o presidente do Centro de Estudos da Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas, Carlos Langoni. Não há dúvida que a vulnerabilidade é menor que há um ano e meio, mas o País continua frágil em suas contas externas.
O Brasil deve registrar este ano um déficit de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) em suas contas externas. Isso quer dizer que precisará atrair, pelo menos, US$25 bilhões em investimentos estrangeiros para cobrir o rombo externo. Para diminuir essa dependência do capital externo, o Brasil precisaria aumentar as exportações para conseguir, com as vendas externas, a entrada de dólares que é garantida pelos investimentos estrangeiros. Com quase nenhum fôlego para aumentar as exportações, o País continua dependendo do dinheiro que vem de fora, para financiar o desequilíbrio nas contas externas. Sempre faz diferença se um País precisa de quase US$30 bilhões por ano, diz Dionísio Carneiro.
Para se ter uma idéia, enquanto o Brasil acumulava até agosto um déficit de US$23,4 bilhões em conta-corrente, o México registrava um resultado negativo de US$16 bilhões, a Argentina de US$11,4 bilhões e o Chile um superávit de US$ 1 bilhão. Os países asiáticos, que também afundaram na crise em 1997, já apresentam recuperação de suas contas externas. A Coréia tem um superávit de US$14 bilhões, a Malásia de US$12,4 bilhões e a Indonésia de US$5,8 bilhões.
O mercado financeiro já dá como certa uma mudança cambial na Argentina. A questão é apenas quando e como. Se a Argentina conseguir mudar o câmbio com auxílio de um organismo internacional, por exemplo, sem precisar suspender o pagamento de sua dívida externa, o Brasil sofrerá impacto, mas este é o melhor de todos os cenários. Na avaliação dos economistas ouvidos pelo Estado, a mais provável consequência de uma piora na crise argentina é a redução no crescimento econômico. Não imagino que haja ruptura no Brasil, mas vamos ficar nesse crescimento medíocre de 2% e 3% ao ano, explica Padovani.
Para Langoni, se a crise na Argentina se arrastar por muito tempo, o Brasil vai sofrer mais, pois a tensão será permanente. Para ele, o perigo é que a situação no vizinho do Mercosul se alie a uma alta ainda maior e longa nos preços do petróleo e a uma aceleração da inflação nos Estados Unidos. Uma superposição de pequenas crises pode fazer um estrago grande. Essa seria, então, a quinta crise desde o início do Real.


