Crise no Paraguai terá desenlace nos próximos dias
Assunção, 27 (AE) - O analista político Carlos Martini disse à Agência Estado que nos próximos dois dias a crise terá de ter um desenlace.
"Nesta segunda ou terça-feira, o julgamento político de Cubas terminará. Se houver 30 votos, a maioria necessária, o impeachment ao presidente. Mas Cubas também poderia renunciar antes do julgamento político.
Quinze dos 17 governadores dos Departamentos (Estados) do país anunciaram que apóiam a destituição de Cubas. Além disso, todos os prefeitos dos municípios do Departamento Central, onde se localiza a capital do país, pediram a saída imediata do presidente.
Descendo apressado a escada do Senado, o presidente da Câmara de Deputado, Walter Bower, e ajeitando um colete à prova de balas, disse à AE que no caso de golpe "acredito na solidariedade internacional", em uma óbvia alusão sobre uma ajuda dos países- sócios do Mercosul.
Secando o suor do rosto e olhando ao redor como se estivesse temendo um bombardeio do prédio a qualquer momento, Bower afirmou que a modalidade de ajuda a ser solicitada "dependerá das necessidades que as circunstâncias impliquem". Segundo ele, se uma ditadura for implantada no país, "ela ficará isolada no contexto internacional. Já se passou a época em que um regime militar não incomodava os vizinhos".
Bower está sendo cotado como uma figura em rápida ascenção. O jovem deputado está assumindo um maior destaque, que o presidente do Senado, Luis González Macchi, não está desempenhando. Em conversas reservadas, o grupo argañista criticou a falta de coragem de Macchi de não ir até o Senado, no momento em que estava cercado. No mesmo instante em que no edifício do Senado se esperava um golpe de Estado, um multidão se aglomerava na direção do estádio de futebol. Mas os motivos eram de outra índole: o jogo Olímpia-Corinthians. Nos elegantes bairros periféricos da cidade, a vida continuava como se nada acontecesse e os shoppings centers, embora com menos clientes, funcionavam normalmente.
Por causa das ameaças à sua segurança, Cubas está dormindo cada dia em um lugar diferente, e sempre bem protegido: o próprio Palácio López, a sede do governo, ou a armada casa do capitão Carlos Cubas, ministro do Interior.
A crise está envolvendo até a esposa de Cubas, Mirtha Guinsky, que chegou a replicar a chuva de críticas que seu marido tem recebido. A primeira-dama, que pode ter seus dias contados nessa função, disse à TV paraguaia que seu marido está disposto "a lançar os tanques nas ruas".
O desenlace da crise é imprevisível, afirmam os próprios paraguaios. "Tudo pode acontecer: desde um golpe de Estado, passando por uma guerra civil, até uma retirada pacífica de Cubas, que sairia do palácio diretamente à sua casa, como se nada tivesse acontecido."
Entre as saídas institucionais, estaria a de Macchi ser empossado como presidente e convocar eleições para daqui a seis meses.Outra possibilidade é a de que Macchi permaneça como presidente até o fim do mandato, em 2003 e somente convoque eleições para vice- presidente, cargo vago desde a morte de Argaña. A dúvida que existe é se Oviedo poderia ser candidato à presidência.
Outro cenário: Cubas poderia renunciar e deixar o Paraguai. Como precedente, o general Alfredo Stroessner, que após ser derrubado, exilou-se no Brasil, onde nunca mais interferiu na política paraguaia de forma pública.
Um golpe militar de Cubas e Oviedo, no melhor estilo do fujimoraço, seria a alterntiva para Cubas ficar na presidência. Já um golpe militar de setores argañistas teria o argumento de "salvar a democracia". A Marinha é a principal cotada para participar desta ação.
Guerra civil é uma possibilidade pouco provável, mas a se levar em conta, especialmente se os setores antagônicos das Forças Armadas reagirem ao golpe de Estado realizado pelo outro. A última guerra civil que o país teve foi em 1947, que arrasou o Paraguai e abriu o caminho para a posterior ditadura do general Stroessner. Nesse caso, prevê-se que os países-sócios do Mercosul realizariam uma intervenção militar.
No Paraguai, considera-se como inevitável que, neste caso, o Brasil ocuparia o lado paraguaio da usina de Itaipu, vital para o abastecimento energético do sul do país. Além disso, tropas poderiam entrar em defesa das vidas dos 300 mil "brasiguaios" moradores na área leste do país, principalmente na margem esquerda do rio Paraná. (A.P.)





