Buenos Aires, 28 (AE) - O Uruguai e o Paraguai, dois sócios costumeiramente denominados como "menores" no Mercosul, estão preocupados pela atual crise entre os sócios "principais": o Brasil e a Argentina. Como pigmeus no meio de uma luta de titãs, as duas economias torcem para que as medidas retaliatórias que ameaçam ser disparadas dos dois lados sejam dissipadas.
"O Mercosul precisa ser revisado. Do jeito que vinha funcionando, estava sendo desvirtuado diariamente", declarou Gulaberto Rocco, presidente da Câmara de Indústrias do Uruguai (CIU).
Rocco considera que as medidas protecionistas e as negociações fora do bloco comercial foram o estopim da atual crise entre o Brasil e a Argentina. Além disso, criticou a falta de coordenação macro-econômica. Teresa Aischenberg, da União de Exportadores do Uruguai (UEU), sustentou que seu país não está sendo afetado pelas decisão argentina de aplicar salvaguardas, mas disse que teme a "desestruturação das relações" dos países-sócios.
O diretor de Integração Econômica do Paraguai, Miguel López, afirmou que "se o problema persistir, todos os países-miembros se sentiriam no mesmo direito de aplicar medidas unilaterais, causando assim o retrocesso do Mercosul".
O Brasil e a Argentina são os principais clientes dos sócios menos ricos: o Paraguai exportou em 1998 o total de US$ 1,1 bilhão, do qual US$ 675 foram destinados a seus três sócios do Mercosul. Desta quantia, US$ 320 milhões foram vendidos à Argentina, e US$ 340 milhões ao Brasil. O Uruguai exportou para todo o mundo US$ 2,8 bilhões, dos quais US$ 1,6 bilhão foram destinados aos países do Mercosul, dos quais US$ 570 milhões foram vendidos à Argentina, e US$ 963 milhões ao Brasil.
Laminados de aço
A Comissão Nacional de Comércio Exterior analisou o pedido da empresa argentina Siderar para aplicar direitos antidumping contra laminados de aço a quente provenientes do Brasil. Segundo a Siderar, a venda de laminados brasileiros na Argentina dobraram em 1998 em relação a 1996 e 1997. A empresa considera que desde março deste ano teve perdas pela entrada de chapas brasileiras. A Siderar anunciou que pretendia fazer investimentos por US$ 1 bilhão, mas que não o poderá fazer enquanto perdurar "esta situação no mercado".
Real culpado, diz chanceler
O vice-chanceler Andrés Cisneros declarou à imprensa que as distorções comerciais do Brasil com a Argentina foram consequências da desvalorização do real. Segundo Cisneros, "tem que haver uma correção", para favorecer a Argentina.
O vice-chanceler afirmou que "o Mercosul não tem um mecanismo ágil para corrigir as distorções, e por isso o estamos fazendo aos trancos e barrancos".
O secretário-geral da presidência, Alberto Kohan, disse que a atual tensão entre o Brasil e a Argentina não afeta as relações políticas, que são excelentes". Segundo Kohan, "isso não será motivo para que Menem adie sua viagem a meados de agosto para comemorar os cem anos da primeira visita presidencial, quando o presidente argentino Julio Roca encontrou-se com o presidente Campos Salles no Rio de Janeiro. A declaração de Kohan choca-se com a afirmação feita na segunda-feira pelo chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampréia de que "não há clima" neste momento para a visita de Menem.

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