Crise no Irã revela a impossibilidade de reformar o regime Do correspondente Reali Júnior
Paris, 15 (AE) - A repressão desta semana às manifestações dos estudantes iranianos constitui a prova de que o regime iraniano não pode ser reformado como pretenderam alguns setores políticos do país, leigos e religiosos, que acreditaram nessa possibilidade imaginando ampliar os ainda exíguos espaços democráticos e de liberdades existentes no Irã. Essa é a opinião do ex - presidente da República , Bani Sadr, um dos principais líderes civis da revolução islâmica contra o Xá, mas que acabou sendo por ela devorado, deposto pelo aiatolá Khomeini. Bani Sadr que havia sido o braço direito de Khomeini no exílio em Paris, em Neauphle -Le -Chateau, acabou fugindo do país numa operação aérea espetacular, obrigado a voltar ao exílio francês onde se encontra há dezoito anos. Ele defende um regime democrático e leigo para seu país, convencido que se caminha nessa direção.
O ex- presidente iraniano vive numa grande, velha e maltratada residência na entrada de Versalhes, (do tipo dos casarões antigos existentes no passado nos bairros de Santa Cecília e Campos Elíseos em São Paulo) simplesmente mobiliada, cercado de seguranças e colaboradores, cujo acesso é estritamente controlado pela polícia francesa. Os excessivos cuidados dos policiais franceses e da segurança iraniana são amplamente justificáveis. Eles são mais ou menos os mesmos que envolviam o ex- primeiro ministro Chapour Bakthiar, o último chefe do governo do Xá, mas que não impediram que ele fosse assassinado no interior de uma residência semelhante, também nas imediações de Paris, mas que acabou infiltrada por um comando especial enviado por Teerã com a missão de executá-lo.
Neste casarão isolado , fora do centro da cidade, Bani Sadr surge hoje como o principal dirigente da oposição iraniana no exílio, designado ainda esta semana pelo próprio guia da Revolução e seu adversário, o aiatolá Ali Khamenei, que pretendeu responsabilizá-lo pelos acontecimentos de rua, dizendo que "os estudantes foram manipulados por homens que foram cassados do poder há dezoito anos atrás". Foi nessa casa que Bani Sadr recebeu a Agência Estado para uma entrevista exclusiva
analisando as principais causas e futuras consequências da constatação ao regime dos religiosos islâmicos.
Não dá para comparar o incomparável. Ele não aceita comparar a contra manifestação dos conservadores com a que ocorreu na França, durante maio de 1968, quando depois de tantas manifestações estudantis, uma maré humana subiu o Champs Elysées para apoiar o regime do general De Gaulle. "É preciso comparar o comparável" , afirma Bani Sadr, lembrando que De Gaulle representava a liberdade enquanto Ali Khamenei representa o obscurantismo. A seu ver, assistimos no Irã a uma grande derrota do regime, admitindo como fraca a mobilização de 50 mil pessoas, numa cidade onde o emprego de 2 milhões de funcionários depende de uma simples assinatura dos dirigentes do regime.
Bani Sadr se mostra confiante na evolução política de seu país, acreditando na deterioração rápida do regime, pois os centros de poder tradicionais no Irã, a universidade e os centros religiosos, estão se aproximando. O Bazar (os comerciantes de Teerã) que em outros tempos teve muita influência, perdeu muita credibilidade, absorvido pelo regime. Antigamente, a universidade era frequentada por apenas 50 mil estudantes, mas hoje eles são 500 mil.
O fato do presidente reformista Mohammed Khatami ter assimilado a repressão, colocando-se ao lado dos conservadores, foi positivo , segundo Bani Sadr, na medida em que tirou a máscara, revelando a impossibilidade total de promover reformas no interior do regime. "Ele cometeu um erro fatal", explica Bani Sadr. Até então ele pôde permanecer no interior do regime e
ao mesmo tempo , estimular as reformas. Agora, os estudantes ultrapassaram a "linha vermelha" como afirmou o ministro francês do Exterior, Hubert Védrine, e disseram não à ditadura atual. "Essa fase de reivindicar reformas no interior do regime acabou , pois o conjunto do regime é que precisa ser mudado", acrescentou o antigo presidente da República.
Khatami, cometeu um erro fatal admitindo a repressão. Bani Sadr compara a situação do presidente Khatami à sua própria situação no tempo do aiatolá Khomeini e às vésperas de sua deposição: "Na época, eu precisa optar, dizer sim ou não às exigências de Khomeini. Muitos me criticaram dizendo que eu não deveria ter dito não, aceitando as exigências de Khomeini para preservar alguns espaços de liberdade no interior do aparelho do Estado". Khatami optou por dizer sim, mas se tivesse dito não muito provavelmente não teria ocorrido nada, pois as condições mudaram muito em todos esses anos.
Primeiro porque Khamenei não tem um décimo da força e do prestigio de Khomeini na época e não teria condições de demití-lo. Além disso, na ocasião, a Revolução Islâmica era muito nova e pouco desgastada.
Agora, a experiência, os erros cometidos e a ausência de resultados depois de 20 anos evidencia todo o seu desgaste. Infelizmente, segundo Bani Sadr, o atual presidente disse sim aos conservadores e novas exigências virão, acompanhadas de outras capitulações. Já se fala que manifestantes serão julgados como contra revolucionários. Isso quer dizer que poderão ocorrer numerosas execuções. Como se sabe, no Irã, este é um crime punido com pena de morte.
Regime persegue dirigentes históricos como o aiatolá Montazeri- - Alguns comentaristas tem dito que a juventude iraniana perdeu seu herói, no momento em que Khatami assimilou a posição dos conservadores , admitindo a repressão e condenando as manifestações. Bani Sadr não concorda com isso e lembra que ela só votou para presidente em Khatami por falta de opção e para poder dizer não ao regime. A repressão desta semana é apenas um dos cinco pontos de uma estratégia velha, já utilizada no passado para afastá-lo do poder e agora repetida. Ela começou a ser aplicada há dezoito meses, quando da repressão aos centros religiosos e principalmente ao de Qom, o mais importante. O ataque visava o aiatolá Montazeri, um dos nomes históricos, hoje mantido em prisão domiciliar.
A segunda operação foram os assassinatos de intelectuais: a terceira foi dirigida contra a política externa de abertura, criando casos como o resto do mundo, a começar pelos vizinhos: os talibans do Afeganistão, a Turquia através dos kurdos do PKK, o Iraque que abriga Radjavi e um movimento dos moujaidins e finalmente o Ocidente, através dos ataques a turistas norte-americanos inicialmente e , posteriormente, procurando incompatibilizar o regime com os judeus de todo o mundo ao acusar treze judeus iranianos de serem agentes de espionagem de Israel.
Isso ocorre, como se fosse puro acaso, no momento em que o presidente Bill Clinton e o novo primeiro ministro de Israel, Ehud Barak, começavam a acenar em direção a uma possível normalização de relações com o Irã. A quarta operação foi a investida contra a imprensa, através do fechamento do jornal "Salam" e a lei antiimprensa, aprovada por pequena maioria pelo Parlamento. A quinta e última operação foi a repressão aos estudantes e à universidade. Estratégia do poder visa impedir união com a "terceira corrente" Tudo isso foi feito, segundo Bani Sadr, para quebrar a evolução da "terceira corrente" política que se situa no exterior do regime e que ele representa fora do Irã, voltada para a abertura democrática do país. Os conservadores, a direita do regime, acreditam que Khatami , representante da corrente de esquerda no interior do regime, estaria cada vez mais próximo do grupo apoiado por Bani Sadr, os estudantes, intelectuais e parte do clero mais esclarecido, seguidores do aiatolá Montazeri. A repressão dos últimos dias tinha por objetivo quebrar essa dinâmica de aproximação. O ex presidente iraniano está convencido que o movimento dos estudantes vai prosseguir e não pode mais parar, mesmo se for interrompido a curto prazo. No momento, verão no Irã, as universidades permanecem fechadas. Os recentes acontecimentos marcam uma ruptura e a situação do regime só poderá se deteriorar.
Para agravar esse quadro, Bani Sadr descreve uma situação econômica catastrófica , desemprego de 50% da população ativa e a possibilidade crescente do país ser atingido pela fome. Uma colheita negativa, prejudicada pela seca, vai obrigar o país a importar 5 milhões de toneladas de trigo este ano. A renda per capita da população é de apenas 180 dólares anuais. Ele cita estudos econômicos revelando que 90% da população vive abaixo do nível mínimo de pobreza.
Isso tudo apesar das receitas de petróleo que alcançam 12 bilhões de dólares por ano, insuficientes para as necessidades básicas do país.





