Depois de completar seu quarto aniversário, o Tratado do Mercosul pode estar vivendo seu ‘‘inferno astral’’. Em um mês em que o Plano Real viveu sua maior crise, com a desvalorização da moeda brasileira chegando a mais de 70%, a liberdade total no trânsito de mercadorias entre os quatro países-membros (que, como prevê o acordo, se consolida em janeiro do ano que vem) passou a ser mais um problema do que uma conquista.
As equipes de governos que comandam as economias do Brasil e da Argentina, as locomotivas do bloco, entraram em rota de colisão depois de divergências na condução das consequências da crise. Responsável por quase um terço das exportações argentinas, o Brasil se tornou uma ameaça à balança comercial do país vizinho.
Segundo analistas internacionais, em consequência da desvalorização do real, 1999 será o primeiro ano, desde 1994, em que o Brasil ficará em vantagem comercial em relação ao parceiro de bloco. Em um ano, as exportações argentinas devem cair US$ 1,5 bilhão.
A percepção desse cenário sombrio, que também inclui previsão de queda anual de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), provocou reação imediata das principais organizações empresariais, que exigiram do presidente Carlos Menem medidas de restrições às importações de produtos brasileiros.
Menem propôs o apoio a duas medidas drásticas: a eliminação dos subsídios equivalentes a US$ 1 bilhão dados pelo governo brasileiro aos exportadores e a adoção do dólar como moeda nacional. O presidente do Banco Central brasileiro, Francisco Lopes, considerou as idéias de Menem como ‘‘politicamente desastrosas’’.
Estão em estudos pela equipe econônica do governo argentino, medidas como o aumento nas alíquotas dos impostos alfandegários e a implantação do sistema de quotas de importação de produtos brasileiros, dois outros pontos que ferem o acordo do Mercosul.

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