Crise na bolsa americana só afeta Brasil se houver problema de crédito
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de abril de 2000
Por Soraya de Alencar 
Brasília, 22 (AE) - O Brasil só será afetado pela crise da bolsa dos Estados Unidos se a situação se agravar a ponto de provocar problemas de crédito, acredita o diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Luiz Fernando Figueiredo. Ou seja, caso instituições financeiras americanas tenham problemas em consequência das turbulências no mercado de ações.
Em sua avaliação, hoje o Brasil depende mais do crescimento mundial do que dos capitais de curto prazo. O diretor do BC lembra que uma quebradeira das instituições seria fruto de um ajuste brusco da economia dos Estados Unidos, que tem crescido de forma não sustentável, na opinião de alguns analistas.
Figueiredo ressalta que a economia americana tem registrado um ritmo de crescimento muito forte nos últimos anos. No semestre passado, o aumento foi equivalente a 6% ao ano e, acredita ele, não seria razoável pensar que os EUA poderiam continuar neste ritmo.
"O Fed (Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos) tem aumentado os juros, mas a resposta tem sido inexistente", avalia Figueiredo. Segundo ele, o que o Fed espera não está acontecendo ainda. "Mais de 50% da população americana investe em ações, que subiram muito", disse. "A oscilação das bolsas foi o primeiro sinal que esta confiança da população pode diminuir, o que é positivo."
O grande risco seria que a turbulência do mercado acionário afetasse negativamente as instituições, promovendo um movimento de quebra no sistema financeiro como peças de dominó. De acordo com Figueiredo, este seria um efeito colateral da crise. "Mas, não parece ser o caso", comentou.
Ele explicou que, nos Estados Unidos, a alavancagem de cada investidor no mercado de renda variável é pequena porque, na compra de ações, só é permitido o financiamento de 50%. No caso de renda fixa, é de até 90%.
"Ao que parece, o que está acontecendo é um ajuste de preço rápido e forte", afirmou o diretor do BC. "Esse processo pode ajudar num soft landing (pouso suave) da economia, ou seja, fazer com que as pessoas tenham cada vez menos a sensação de riqueza e, assim, passem a consumir menos", explicou. Figueiredo considera que ainda é cedo para dizer que o risco acabou. "Mas diminuiu bastante, quando a volatilidade do mercado ficou menor."


