Crise leva argentinos à loucura
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2002
Marcela Valente Agência Lusa 
Buenos Aires - O cenário é o de um pós-guerra: consultórios psiquiátricos lotados e médicos se queixando de cansaço. Jorge Copola, um desses profissionais, que atende no Hospital Alvear, de Buenos Aires, diz que, nos últimos cinco anos, duplicou a demanda de emergências psiquiátricas, especialmente depois de dezembro do ano passado, quando a crise econômica atingiu o seu auge. Quando ingressou no serviço público, Copola fazia parte de um grupo de cinco plantonistas, por turno. Hoje, são apenas quatro e ele e todos os companheiros sabem que em dia de plantão noturno ninguém consegue dormir.
O ritmo de trabalho cresceu de forma paralela à crise. Especialistas atribuem o fenômeno às tentativas de suicídio, às agressões verbais e físicas, às auto-agressões, ao estresse agudo, às depressões e às internações. O atendimento de urgência aumentou 30% entre dezembro e janeiro, mas a quantidade não é o que mais preocupa, e sim a gravidade dos casos, diz Gustavo Ligalupi, do Centro de Emergências Psiquiátricas da Argentina. A maioria dos casos se relaciona com loucura passageira, uma alteração grave de conduta, explica.
Tanto Copola quanto Ligalupi concordam em que uma enorme maioria dos adultos sofre de problemas relacionados ao trabalho, homens que se culpam por não poder manter a família ou que estão a ponto de perder a casa por falta de pagamento. São pessoas que já perderam muito - carros, vagas em escolas, lazer, entre muitas outras coisas, diz Ligalupi. As mulheres são as usuárias mais assíduas em serviços psiquiátricos, em nível mundial, mas, na Argentina, seus traumas não são tão graves quanto os dos homens. Estávamos acostumados com mulheres tentando se matar ingerindo comprimidos. Hoje, são os homens que aparecem com o estômago cheio de pílulas ou de inseticidas e até com ferimentos graves por armas brancas, acrescenta Ligalupi.
Ambos os especialistas destacam que nas camadas médias e altas, além das agressões dentro da família, há muitos casais que decidiram se separar e não o conseguem, por falta de dinheiro, o que agrava o mal estar e a violência entre os cônjuges e contra os filhos.


