Buenos Aires, 15 (AE) - A grave crise econômica que a Argentina está vivendo obriga as famílias portenhas a ajudar parentes em dificuldades financeiras: segundo uma pesquisa feita pela Sofres-Ibope, um entre cada três habitantes de Buenos Aires possui um parente desempregado.
A pesquisa indica que 17% dos habitantes da cidade ajuda seu parente desempregado com parte de seu próprio dinheiro. A quantia oscilaria entre 10% e 30% do total de seu salário ou receita.
A pesquisa também indicou que o temor a perder o emprego atinge uma avassaladora maioria da população: 80% considera que pode perder o trabalho a qualquer momento. O medo não é só perdê-lo: 35% dos portenhos acredita que não poderá encontrar nenhum emprego em menos de um ano ou mesmo nunca mais.
Embora a pesquisa não tenha sido realizada no interior do país
a situação ali é pior, já que Buenos Aires é a cidade com maior qualidade de vida no país. Os recentes protestos contra o modelo econômico o evidenciam: nesta terça-feira (15) à tarde, uma centena de desempregados ocupou a Catedral da cidade de Córdoba, a terceira do país em população, e o segundo centro industrial da Argentina.
A falta de pagamento aos funcionários públicos está paralisando a cidade de Corrientes, capital da província homônima. Desde o início do mês, metade da polícia está em greve e milhares de pessoas realizam passeatas diárias pedindo o pagamento de seus salários.
No entanto, a situação é de impasse, já que o governo provincial alega não poder pagar, pois tem dívidas por US$ 1,5 bilhão. Na semana passada, o governador Pedro Poccard foi apedrejado por manifestantes, e o governo federal precisou enviar 400 gendarmes para controlar a situação. Nos últimos dias
diversos protestos bloquearam as vias de acesso a Rosario, a segunda cidade do país e um dos maiores centros agrícolas.
Na província de La Pampa, centenas de mulheres lavradoras fizeram piquetes nas estradas. Caminhoneiros e motoristas de ônibus protestaram contra novos impostos em Mendoza, e na Terra do Fogo funcionários públicos invadiram a sede do governo e destruíram móveis por causa de atrasos nos salários.
A maioria destes protestos está sendo realizada de forma espontânea. Essa característica é o que assusta o governo: a falta quase que completa de presença de organizações sindicais nestas manifestações pode fazer com que seja mais difícil de controlá-las.
A oposição acusa o governo de ter abandonado as economias provinciais e de não ter atendido os conflitos sociais. O Banco Mundial sustenta que seis de cada 10 argentinos não conseguem dinheiro suficiente para cesta básica. Além disso, o órgão internacional calcula que 70% dos 3,5 milhões dos habitantes das áreas rurais são pobres e que 30% destes estão na indigência.
A capital argentina, embora com melhores padrões de vida, não escapou da onda de manifestações: no último mês houve seis marchas diárias nas ruas da cidade, com uma média de 2.600 pessoas em cada uma.
Neste contexto de polêmica sobre a pobreza no país, o Instituto de Estatísticas e Censos (Indec), acaba de colocar mais lenha na fogueira: divulgou projeções sobre o índice de desemprego, afirmando que de 12,4% em outubro do ano passado, o desemprego poderia ter chegado a 14,2% em maio deste ano.
Segundo a pesquisa, na Grande Buenos Aires, onde estão as principais indústrias do país, o desemprego teria passado de 15 1% para 17,5%. Os índices oficiais serão anunciados daqui a duas semanas.

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