O Brasil, que iniciou o ano sob os efeitos, ainda, do pacote de novembro de 97, com juros altos e outros problemas sérios, não teve um ano bom, economicamente. A crise que veio de fora, os problemas econômicos da Ásia, primeiro, e da Rússia, depois, foram se acumulando e chegaram ao Brasil, com força. É certo que para que isto acontecesse, também colaborou em muito a falta de ação mais concreta das autoridades que desperdiçaram quase que todo o ano sem concluir as reformas estruturais, notadamente a da Previdência e a administrativa.
Sem soluções internas e com a avalanche dos problemas externos, a situação foi se tornando muito séria. A inflação estava contida, mas também havia recessão, desemprego, um quadro tanto mundial quanto local. As reservas cambiais começavam a fugir do país, notadamente após a moratória russa, de tal modo que o Brasil acabou tendo de apelar de novo para o FMI e outras entidades externas.
Paralelamente, houve a necessidade de novos sacrifícios. A taxa de juros, puxada para cima em novembro de 97, que estava baixando aos poucos, foi novamente levada às alturas. E, logo em seguida às eleições, o Governo Federal anunciou um novo pacote fiscal, destinado a conter o déficit que atingiu níveis alarmantes.
Em março, ainda num esforço para reduzir os efeitos duros dos juros elevados, o Banco Central baixou a taxa para 28%. Mas, de fora, vinham sinais preocupantes. A crise na Ásia provocava efeitos em todo o mundo. Em maio, as Bolsas de Valores começavam a cair, perigosamente.
A recessão se fazia sentir. Tentando aquecer o mercado, em julho, o Governo reduzia o IOF de 15 para 6%. Era uma tentativa tímida. E a perda de reservas ia se acentuando, acendendo sinais vermelhos por toda parte.
Houve novo esforço para aquecer o mercado de veículos, com uma redução no IPI. Afinal, a crise estava pegando forte na indústria automobilística. Os juros voltavam a baixar, chegando a 19,75%
Mas, em agosto, a crise explodiu de vez. Primeiro foi Hong Kong. A onda especulativa causou imensos estragos, repercutiu pelo mundo. O iene japonês atingiu os níveis mais baixos dos últimos tempos. Os mercados caiam pelo mundo todo. E para tumultuar de vez o mercado, a Rússia declarou moratória de sua dívida. Na Rússia, a crise derrubou o primeiro-ministro Sergei Kirienko. Na América Latina, havia uma fuga crescente dos investidores internacionais. No fim de agosto, o pânico parecia se instalar por todo o mercado. O Brasil perdia cerca de US$ 10 bilhões em reservas.
Em setembro, dia 4, o mercado mundial vivia mais uma ‘‘sexta-feira sombria’’, com derrocada por toda parte. O governo brasileiro anunciava cortes no orçamento. A crise porém chegava em cheio ao Brasil. Os dólares continuavam fugindo. E, então, em uma repetição de novembro do ano passado, piorada, o Banco Central mexeu de novo nos juros e os jogou para 49% ao ano. Percebendo que a crise poderia provocar um efeito dominó, as autoridades econômicas norte-americanas reduziam os juros. Para o Brasil, um sinal: o FMI prometia ajuda. O BID e o BIRD, também.
Já com a reeleição assegurada, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciava medidas fiscais austeras, incluindo fortes cortes no orçamento federal. O FMI confirmava um empréstimo da ordem de US$ 30 bilhões ao Brasil. E, no fim de outubro, o Governo Federal anunciava novo ajuste fiscal.
No começo de novembro, os juros foram reduzidos a 42,2%. Definia-se uma ajuda externa ao Brasil de US$ 41,5 bilhões, dependente, porém, do ajuste fiscal. E, no início de dezembro, o Congresso, que havia dado mostras de visão e disposição no começo do ano, numa convocação extraordinária (ainda no clima do pacote de novembro de 97) e que vinha aprovando uma série de medidas importantes do ajuste fiscal, derrubou uma medida provisória relativa à contribuição dos inativos para a Previdência. Foi uma derrota dura para o Governo Federal. Os números também se mostravam assustadores: o déficit público atingiu 8,3% do PIB, o nível mais elevado de todos os tempos.
O Governo ainda tentava novas medidas, inclusive o estabelecimento de um teto salarial, para conter os gastos. Mas o teto anunciado, pouco mais de R$ 12 mil, provocou reações negativas, inclusive por implicar em elevação nos vencimentos do presidente e dos parlamentares, em um nível bem acima da inflação.
As boas notícias ficavam por conta da inauguração da Renault, no Paraná, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso pode falar sobre a resposta positiva implicita naquele ato. Também a previsão de uma inédita inflação para o ano, nos níveis mais baixos dos últimos 50 anos, aponta para a estabilidade. Mas as previsões para 99 são nebulosas. A inflação está contida, mas ainda há muita coisa a fazer para evitar o efeito colateral de uma recessão pesada.

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