São Paulo, 12 (AE) - A desnutrição infantil manteve-se estável no Brasil na última década, mas tende a aumentar com o agravamento da crise econômica. A advertência foi feita hoje pela nutróloga e pesquisadora Ana Lydia Sawaya, presidente do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren) da Escola Paulista de Medicina, durante o seminário Alimentação na Primeira Infância - Um Projeto para o Brasil. O evento, promovido pela Fundação Instituto Calfat-Salem para Infância, ocorreu hoje no Parlamento Latino-Americano, em São Paulo.
Embora entre 1974 e 1989, o porcentual de menores de 5 anos desnutridos tenha caído muito no País, a partir daí, segundo Ana, a queda foi só aparente porque a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSD) deixou de levar em conta os desnutridos leves. A médica critica os novos critérios lembrando que diversos estudos comprovam que, mesmo as crianças com desnutrição leve são mais propensas a infecções, apresentam taxas de internações hospitalares e de mortalidade infantil mais altas e desempenho escolar menor que a população infantil bem nutrida. A desnutrição é responsável por mais da metade das mortes de crianças no mundo, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Segundo a PNSD, em 1989, quase 31% dos menores de 5 anos apresentavam desnutrição severa, moderada ou leve, considerando-se o parâmetro peso/idade. Em 1996, a pesquisa indicou cerca de 6% de desnutrição, mas computou apenas os desnutridos moderados ou severos. "Se tivessem considerado todos, o porcentual teria sido semelhante ao de 1989", diz Ana.
Não existem dados estatísticos mais recentes, mas a observação empírica dos profissionais da saúde do Cren indica que a situação se deteriorou desde então. O Cren trabalha com desnutridos que vivem na maior favela da Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo. "Com o aumento do desemprego, segmentos da classe média baixa estão mudando para as favelas onde cresceu o número de desnutridos e a gravidade das deficiências alimentares", diz a presidente do centro. Ela lembrou que as recentes pesquisas, que revelam queda considerável nas vendas dos supermercados nos últimos meses, indicam que a situação continua se agravando.

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