Paris, 31 (AE) - Os países europeus que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estão encontrando, a cada dia que passa, mais resistência à campanha de bombardeios a alvos militares sérvios.
Essa realidade é mais evidente na França e Itália, mas verificada também na Inglaterra e Alemanha, aumentando a intranquilidade da opinião pública européia que se interroga sobre a evolução dessa guerra - na qual a presença de forças terrestres já não é uma possibilidade totalmente descartada, apesar de o tema continuar dividindo a classe política.
Se a guerra agravar-se, ela poderá ter consequências políticas internas importantes em alguns países, não estando afastada a hipótese de implosão das maiorias parlamentares que sustentam hoje governos como os da França e Itália.
Os comunistas italianos dirigidos por Armando Cassutta ameaçam deixar o governo. Ele ameaça Massimo DAlema com a saída de seus dois ministros do governo logo depois da Páscoa. Também os verdes italianos, integrantes da coalizão governamental, anunciam que já não podem continuar admitindo os bombardeios .
Na Franca, a exclusão dos ministros comunistas está sendo solicitada pela oposição conservadora. Hoje, o líder da oposição gaullista, Philippe Séguin, afirmou que "é impensável, numa situação de guerra, a França aparecer dividida perante sua opinião pública".
Assistimos atualmente em alguns países à pulverização das posições partidárias, o que tem contribuído para estabelecer uma grande confusão no cenário político. Se o presidente gaullista, Jacques Chirac, e o primeiro-ministro socialista, Lionel Jospin, parecem inteiramente afinados, o mesmo não se pode dizer das forças que constituem a maioria governamental.
Hoje, durante a reunião do Conselho de Ministros, comunistas, verdes e mesmo o ministro do Interior, Jean-Pierre Chevenement, representante do Movimento dos Cidadãos, manifestaram, sob várias formas, sua oposição à visão oficial do tema, diante do chefe de Estado e do chefe do governo.
Na Assembléia Nacional, o primeiro-ministro Jospin tentou minimizar essas discordâncias afirmando: "Diante de problemas como o da paz e da guerra, da opressão e da liberdade, é normal, numa democracia como a francesa, que haja debates no Parlamento, na imprensa e até nas reuniões do Conselho de Ministros. No período que atravessamos, cada um deve manifestar sua convicção."
Ele já não exclui a possibilidade de uma ação terrestre da Otan em Kosovo, mesmo sabendo que, se o caminho for esse, sua maioria parlamentar certamente vai implodir.
Na Inglaterra, a opinião pública aprova Tony Blair, mas a classe política também está dividida. Na ala esquerda do Partido Trabalhista, Tony Benn opõe-se à utilização da forca, mas outros representantes da esquerda trabalhista, Michael Foot e Vanessa Redgrave, apóiam o primeiro-ministro. Mesmo entre os conservadores britânicos, os eurocéticos buscam afastar-se da cúpula do partido, cujo líder William Hague, apóia Blair. A base isolacionista do partido denuncia essa "intervenção numa guerra civil".
Na Alemanha, alguns analistas afirmam que o chanceler Gehrard Schroeder obteve um consenso apenas de fachada, havendo reações e pressões no Partido Social-Democrata (SPD) e mesmo entre seus aliados verdes, liderados por Joshka Fischer, que ocupam ministérios fundamentais. Afinal, a situação não deixa de ser traumatizante para o país. Trata-se do primeiro conflito que conta com a participação alemã após a 2ª Guerra e o terceiro desse século contra a Sérvia.
Apesar desse conflito nada ter a ver com os precedentes, historiadores e analistas alemães lembram as hostilidades lançadas por Guilherme II, na 1ª Guerra, e por Hitler, que bombardeou Belgrado na 2ª, com o apoio dos croatas.
Todos os grandes partidos aprovaram os ataques aéreos. Só o PDS, o pequeno partido comunista de Gregor Gysi, levantou sua voz para advertir: "Bombas jamais são dirigidas contra um ditador. Elas atingem sempre o conjunto da população."
Se a cúpula verde apóia a posição oficial, a base do partido já tem saído às ruas para protestar contra a guerra, bem como vários dirigentes regionais do SPD, como Renata Schmidt e Henning Voschereau, denunciando a "incoerência dos bombardeios".

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